Dia 15/12 – Segundo Jump do meu Southbound
Apesar de eu já estar acostumado com a viagem até Punta
Arenas, dessa vez o “chá de cadeira” foi enorme. A despedida em casa até que
foi rápida como sempre. Mariana dormia e mal conseguiu acordar para me dar
adeus, além da minha cachorrinha Lili, é claro, que estava toda sonolenta. Só
minha mãe mesmo para acordar as 3 hs da manhã para fazer café. A viagem começa
com a subida da serra rumo ao aeroporto em Guarulhos e para variar, TAM e LAN não
se entendiam. Apesar da minha reserva ter o terminal 1 de Guarulhos
referenciado, meu vôo estava programado para o novo terminal 4, mais de dois
quilômetros da entrada do aeroporto. Acho que caminhei mais dentro do aeroporto
do que quando dou umas corridinhas na praia. O vôo para o Chile saiu com mais
de 2 horas e meia de atraso o que significava que eu perderia a conexão de
Santiago até Punta Arenas. Chegando lá, já que tinha que esperar, fui para meu
tradicional almoço no restaurante Gatsby, tipicamente chileno. Eu esperei mais
4 horas no aeroporto até pegar a conexão para Punta Arenas onde cheguei bem
tarde. Já eram mais de meia noite quando joguei minhas coisas no chão e me
larguei na confortável cama da hosteria da AXXI. (A empresa mantém quartos e
cozinha para nós guias dentro do escritório, o que facilita nossa vida em Punta
Arenas).
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| Meu almoço no Gatsby |
Dia 16/12
Meu relógio biológico, apesar de ainda no horário
brasileiro, começou a trabalhar no modo antártico. Eu simplesmente acordei
totalmente as 6 da manhã, hora local. Minhas tarefas para o dia incluíam organizar
o início da operação e pegar as roupas especiais, além da burocracia normal de
visto de trabalho, contrato, banco, etc etc etc. Não parei um minuto sequer mas
já começava a matar as saudades de Punta Arenas, do restaurante francês “La
Cuisine”, onde fazemos nossas refeições, e de todo o pessoal do escritório. Nem
vi o tempo passar e já eram mais de 23 horas quando finalmente fui deitar
cansado mas feliz de ter finalmente começado minha temporada.
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| Os tradicionais cachorros de Punta Arenas |
Dia 17/12
O Dia “D” é esse ! é o dia que chegam os passageiros, nos apresentamos
a eles, e fazemos várias rodadas de palestras sobre a Antártica, principalmente
o que “não se pode fazer” por lá, os riscos envolvidos e tudo mais. É um dia de
muito trabalho na oficina da AXXI, com muito trabalho de computador baixando
dados que vão servir para a operação. A noite a viagem começa com ume vento
social – o coquetel de boas vindas e um jantar no belíssimo e antigo Hotel
Nogueira no centro de Punta Arenas, com direito inclusive a um drink com a neta
de Sir Ernest Shackleton que estava no hotel naquela noite. Já sabíamos que o vôo poderia ocorrer na
parte da manhã do dia seguinte mas dependiam das condições meteorológicas.
Entramos então em standby mode – apenas aguardando. Sempre vamos ao bar do
hotel Dreams que fica na frente do escritório, para iniciar a temporada com pé
direito, mas dessa vez os drinks não duraram mais do que meia hora de tão cansados
que todos estavam.
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| As palestras de boas vindas |
Dia 18/12
Meu dia de JUMP ACROSS THE DRAKE começou as 6 horas da
manhã. Tudo pronto e arrumado, apenas aguardamos o sinal para ir até o
aeroporto, o que acabou acontecendo só as 10hs da manhã por causa de um problema
logístico. O Hercules da FAB levando pesquisadores do PROANTAR brasileiro para
a Antártica teve prioridade de vôo e acabou empurrando nossa janela de vôo para
frente. Saímos de Punta Arenas depois do meio dia e quando chegamos na
Antártica o aeroporto da base chilena Eduardo Frei estava simplesmente caótico,
com dois Hércules (um do vôo e o outro quebrado, por conta de um acidente
algumas semanas antes), e tivemos que posicionar nosso avião no meio da pista.
Apesar do caos, logo fizemos uma linha de passageiros rumo a praia e apesar do
tempo curto pude dar um longo abraço em Mariano e Loli, meus queridos amigos
que estavam deixando a Antártica pois nossa equipe estava sendo trocada ali.
Reencontros...esse é o sentimento forte que vem cada vez que
coloco os pés na Antártica. É ali que eu reencontro meus grandes amigos, muitas
vezes ainda na pista de pouso de Frei. E um local de boas lembranças.
A operação foi rápida – descemos a pista (cheia de neve para
variar), botes na água com vento forte e algumas ondas chatas, transporte de
bagagens, e em mais ou menos 1 hora e meia já estávamos navegando rumo ao
Estreito de Bransfield com todos os passageiros já confortavelmente alojados em
seus camarotes. Meu colega de quarto nessa temporada é o montanhista Felipe,
que eu estava conhecendo ali naquele momento.
A correria foi enorme até a noite mas mesmo assim pude
cumprimentar cada um dos meus amigos e conhecidos do navio, do hotel do navio,
sala de maquinas, marinheiros, ponte, incluindo a novidade do ano – Capitão Barrios,
um excelente companheiro antártico com o qual eu trabalhei nos últimos 5 anos,
ele como primeiro oficial e agora comandante da nossa casa flutuante. Fui
dormir feliz por estar mais uma vez em águas antárticas.
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| A caminho da praia depois de desembarcar do avião |
Dia 19/12
Mikkelsen Island é uma pequena ilhota já na entrada do canal
de Gerlache, ao sul da Ilha Trinity. Uma pequena mas bem organizada colônia de
pinguins gentoos cresce ali ao redor da uma cabana argentina abandonada. Nosso
primeiro desembarque ocorreu sem maiores problemas, eu pilotando meu zodiac
como taxi do navio para terra e depois uma boa caminhada ao redor da ilha.
Achei muita neve em comparação com os outros anos, e uma neve bem dura. Foi o
primeiro desembarque também para os passageiros daquela viagem e bom para
ajustar nossa operação. Bem Jackson é nosso líder de expedição e uma pessoal
muito organizada e amável. Tudo absolutamente tranquilo e sem maiores
atropelos. Tanto que terminamos em tempo para um bem servido almoço a bordo no
horário programado.
A tarde cruzamos o canal de Gerlache até Cierva Cove, o
paraíso dos gelos flutuantes. Já começamos de pronto a avistar baleias ao longe
e a programação era sair com os zodiacs em um cruzeiro pela baia. Eu fiz par
com minha colega Sandra Walser, a suíça responsável pelo programa de qualidade
a bordo e uma amiga de muitos anos antárticos. Apesar do dia ter começado cinza
o tempo parecia abrir cada vez mais o que prometia sol para nossa parte sul da
viagem. Baleias, por de sol, um excelente cruzeiro e a alegria de poder visitar
novamente esses lugares mágicos da Antártica. Fomos dormir já a caminho da
passagem sul de Lemaire, e tínhamos quase 100 milhas pela frente para cruzar a noite.
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| Belo por de sol em Gerlache |
Dia 20/12
As 7 horas da manhã estávamos as portas de Lemaire com um
tempo maravilhoso, céu azul, sem vento e sol mais ou menos 1 palmo acima do
horizonte. Nosso destino era a Ilha Petermann, mas com pouquíssimo tempo disponível
já que as condições de gelo fizeram com que a navegação se tornasse mais lenta.
O sol estava forte e uma camada mais grossa de protetor solar foi necessário
para enfrentar a luminosidade de Petermann, com muita neve e já os primeiros
filhotes de pinguins adélie aparecendo. A colônia de Petermann parecia firme e
forte, com gentoos, adélies e cormorões. Saímos de lá por volta do meio dia
rumo a Port Lockroy, a pequena e linda base inglesa que mantem seu estilo retrô
da década de 50. Eu praticamente passei a tarde pilotando zodiacs entre o navio
e terra, mas tive tempo suficiente para bater um bom papo com Sarah, a chefe da
base, com quem tenho trocado idéias de como fazer ciência por ali sem
comprometer o visual histórico da base. Lockroy é muito pequeno e por isso não
é fácil manejar 60 passageiros ali. Mas apesar do stress, deu tudo certo e
voltamos para borto as 6 da tarde para um excelente e tradicional Antarctic
Barbecue – churrasco antártico. A festa se completou a noite ainda com o cômico
Antarctic Quis, tocado pelo meu amigo Doutor Sérgio e seu companheiro
neozelandês Jamie. Fomos dormir ainda ancorados em Port Lockroy e para nós
(Felipe e eu) que dormimos no deck 2 na linha d’água, em cima da casa de
maquinas, o silêncio foi providencial.
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| A entrada do canal de Lemaire |
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| Uma foca dorminhoca bem no meio do canal |
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| Eu e o Doutor Sérgio pela manhã no Canal de Lemaire |
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| A pequena e bela Port Lockroy |
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| O tradicional churrasco antártico |
Dia 21/12
O tempo acabou virando e um frio sudoeste entrou em Paradise
Bay, logo ali na curva de Port Lockeroy. Fizemos um tradicional 2 em 1, com
cruzeiro de zodiac e desembarque na base argentina (abandonada) de Almirante
Brown, com direito a baleias, icebergs e uma caminhada na montanha congelada.
Bom para colocar o pulmão em dia. O esforço compensa a vista. Já pela tarde
migramos para Ohrne Cove, algo como que 25 milhas mais ao norte, com mais uma
escalada na neve daquelas de botar os pulmões para fora, mas com uma vista
espetacular do canal de Gerlache. Apesar do tempo cinza escuro e muito frio,
Orhne foi escolhido como nosso ponto para o Polar Plunge, onde os passageiros
tem a oportunidade de pular na água “em pelo” e sentir o verdadeiro frio polar.
Nada como uma sopa quente a noite e uma palestra memorável de nosso
glaciologista Johnatan. A noite seria longa e pegaríamos mar aberto até as
ilhas Sheetlands, nosso ponto de partida e agora de retorno para esse primeiro
grupo. Apesar do balanço, a noite foi absolutamente tranquila.
Dia 22/12
Nossa manhã começou com a entrada em Deception Island, para
um desembarque rápido em Whalers bay. Eu peguei um grupo de caminhada até the
Neptune Windows, com uma vista fantástica para o estreito de Bransfield, apesar
do vento frio que batia naquela hora. O céu abriu e permitiu umas belas fotos
da baia dentre de Deception, embora o tempo tenha sido extremamente curto –
apenas 1 hora e meia de desembarque. Mas deu até tempo para dar minha palestra
sobre mudanças climáticas antes do almoço. Já tínhamos que pegar o mar
novamente rumo a Yankee Harbour, nosso último ponto de desembarque dessa viagem
e já no meio do caminho, o verdadeiro tempo Antártico entrou firme e forte.
Nuvens negras, carregadas de neve, muito vento e um frio de rachar os dentes.
Yankee é um local de desembarque relativamente fácil mas de uma caminhada muito
longa, com vários elefantes marinhos e uma enorme colônia de pinguins gentoo.
Foram 2 horas e meias de muito frio mas valeu a penas pelo cenário
verdadeiramente polar. Voltamos a bordo para as festividades de encerramento
dessa primeira semana, com brindes, coquetel de despedida, jantar e fotos e
muitooooo trabalho para nós guias. Na verdade é na última noite que mais trabalhamos,
sempre sorrindo e absolutamente uniformizados (com direito a gravata e tudo
mais). Fui dormir bastante cansado mas contente e satisfeito de ter completado
mais um grupo antártico sem maiores problemas. Novos amigos, novas histórias.
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| Algumas fotos da primeira viagem |
Dia 23/12
Chegamos em Frei ainda na noite de 22/12 e o tempo não
estava nada bom. Mesmo assim, a ordem era esperar e é o que estou fazendo
exatamente agora. Todas as malas já estão em terra e aguardamos apenas a ordem
para desembarcar os passageiros, o que deve acontecer logo depois do almoço.
Estou ansioso pois o grupo que chega é o que irá comemorar o natal com a gente.
Então...vamos a mais uma viagem polar.