terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Classica Antarctica

Dia 15/12 – Segundo Jump do meu Southbound
Apesar de eu já estar acostumado com a viagem até Punta Arenas, dessa vez o “chá de cadeira” foi enorme. A despedida em casa até que foi rápida como sempre. Mariana dormia e mal conseguiu acordar para me dar adeus, além da minha cachorrinha Lili, é claro, que estava toda sonolenta. Só minha mãe mesmo para acordar as 3 hs da manhã para fazer café. A viagem começa com a subida da serra rumo ao aeroporto em Guarulhos e para variar, TAM e LAN não se entendiam. Apesar da minha reserva ter o terminal 1 de Guarulhos referenciado, meu vôo estava programado para o novo terminal 4, mais de dois quilômetros da entrada do aeroporto. Acho que caminhei mais dentro do aeroporto do que quando dou umas corridinhas na praia. O vôo para o Chile saiu com mais de 2 horas e meia de atraso o que significava que eu perderia a conexão de Santiago até Punta Arenas. Chegando lá, já que tinha que esperar, fui para meu tradicional almoço no restaurante Gatsby, tipicamente chileno. Eu esperei mais 4 horas no aeroporto até pegar a conexão para Punta Arenas onde cheguei bem tarde. Já eram mais de meia noite quando joguei minhas coisas no chão e me larguei na confortável cama da hosteria da AXXI. (A empresa mantém quartos e cozinha para nós guias dentro do escritório, o que facilita nossa vida em Punta Arenas).
Meu almoço no Gatsby


Dia 16/12
Meu relógio biológico, apesar de ainda no horário brasileiro, começou a trabalhar no modo antártico. Eu simplesmente acordei totalmente as 6 da manhã, hora local. Minhas tarefas para o dia incluíam organizar o início da operação e pegar as roupas especiais, além da burocracia normal de visto de trabalho, contrato, banco, etc etc etc. Não parei um minuto sequer mas já começava a matar as saudades de Punta Arenas, do restaurante francês “La Cuisine”, onde fazemos nossas refeições, e de todo o pessoal do escritório. Nem vi o tempo passar e já eram mais de 23 horas quando finalmente fui deitar cansado mas feliz de ter finalmente começado minha temporada.
Os tradicionais cachorros de Punta Arenas
Dia 17/12
O Dia “D” é esse ! é o dia que chegam os passageiros, nos apresentamos a eles, e fazemos várias rodadas de palestras sobre a Antártica, principalmente o que “não se pode fazer” por lá, os riscos envolvidos e tudo mais. É um dia de muito trabalho na oficina da AXXI, com muito trabalho de computador baixando dados que vão servir para a operação. A noite a viagem começa com ume vento social – o coquetel de boas vindas e um jantar no belíssimo e antigo Hotel Nogueira no centro de Punta Arenas, com direito inclusive a um drink com a neta de Sir Ernest Shackleton que estava no hotel naquela noite.  Já sabíamos que o vôo poderia ocorrer na parte da manhã do dia seguinte mas dependiam das condições meteorológicas. Entramos então em standby mode – apenas aguardando. Sempre vamos ao bar do hotel Dreams que fica na frente do escritório, para iniciar a temporada com pé direito, mas dessa vez os drinks não duraram mais do que meia hora de tão cansados que todos estavam.
As palestras de boas vindas

Dia 18/12
Meu dia de JUMP ACROSS THE DRAKE começou as 6 horas da manhã. Tudo pronto e arrumado, apenas aguardamos o sinal para ir até o aeroporto, o que acabou acontecendo só as 10hs da manhã por causa de um problema logístico. O Hercules da FAB levando pesquisadores do PROANTAR brasileiro para a Antártica teve prioridade de vôo e acabou empurrando nossa janela de vôo para frente. Saímos de Punta Arenas depois do meio dia e quando chegamos na Antártica o aeroporto da base chilena Eduardo Frei estava simplesmente caótico, com dois Hércules (um do vôo e o outro quebrado, por conta de um acidente algumas semanas antes), e tivemos que posicionar nosso avião no meio da pista. Apesar do caos, logo fizemos uma linha de passageiros rumo a praia e apesar do tempo curto pude dar um longo abraço em Mariano e Loli, meus queridos amigos que estavam deixando a Antártica pois nossa equipe estava sendo trocada ali.
Reencontros...esse é o sentimento forte que vem cada vez que coloco os pés na Antártica. É ali que eu reencontro meus grandes amigos, muitas vezes ainda na pista de pouso de Frei. E um local de boas lembranças.
A operação foi rápida – descemos a pista (cheia de neve para variar), botes na água com vento forte e algumas ondas chatas, transporte de bagagens, e em mais ou menos 1 hora e meia já estávamos navegando rumo ao Estreito de Bransfield com todos os passageiros já confortavelmente alojados em seus camarotes. Meu colega de quarto nessa temporada é o montanhista Felipe, que eu estava conhecendo ali naquele momento.
A correria foi enorme até a noite mas mesmo assim pude cumprimentar cada um dos meus amigos e conhecidos do navio, do hotel do navio, sala de maquinas, marinheiros, ponte, incluindo a novidade do ano – Capitão Barrios, um excelente companheiro antártico com o qual eu trabalhei nos últimos 5 anos, ele como primeiro oficial e agora comandante da nossa casa flutuante. Fui dormir feliz por estar mais uma vez em águas antárticas.
A caminho da praia depois de desembarcar do avião

Dia 19/12
Mikkelsen Island é uma pequena ilhota já na entrada do canal de Gerlache, ao sul da Ilha Trinity. Uma pequena mas bem organizada colônia de pinguins gentoos cresce ali ao redor da uma cabana argentina abandonada. Nosso primeiro desembarque ocorreu sem maiores problemas, eu pilotando meu zodiac como taxi do navio para terra e depois uma boa caminhada ao redor da ilha. Achei muita neve em comparação com os outros anos, e uma neve bem dura. Foi o primeiro desembarque também para os passageiros daquela viagem e bom para ajustar nossa operação. Bem Jackson é nosso líder de expedição e uma pessoal muito organizada e amável. Tudo absolutamente tranquilo e sem maiores atropelos. Tanto que terminamos em tempo para um bem servido almoço a bordo no horário programado.
A tarde cruzamos o canal de Gerlache até Cierva Cove, o paraíso dos gelos flutuantes. Já começamos de pronto a avistar baleias ao longe e a programação era sair com os zodiacs em um cruzeiro pela baia. Eu fiz par com minha colega Sandra Walser, a suíça responsável pelo programa de qualidade a bordo e uma amiga de muitos anos antárticos. Apesar do dia ter começado cinza o tempo parecia abrir cada vez mais o que prometia sol para nossa parte sul da viagem. Baleias, por de sol, um excelente cruzeiro e a alegria de poder visitar novamente esses lugares mágicos da Antártica. Fomos dormir já a caminho da passagem sul de Lemaire, e tínhamos quase 100 milhas pela frente para cruzar a noite.
Belo por de sol em Gerlache
Dia 20/12
As 7 horas da manhã estávamos as portas de Lemaire com um tempo maravilhoso, céu azul, sem vento e sol mais ou menos 1 palmo acima do horizonte. Nosso destino era a Ilha Petermann, mas com pouquíssimo tempo disponível já que as condições de gelo fizeram com que a navegação se tornasse mais lenta. O sol estava forte e uma camada mais grossa de protetor solar foi necessário para enfrentar a luminosidade de Petermann, com muita neve e já os primeiros filhotes de pinguins adélie aparecendo. A colônia de Petermann parecia firme e forte, com gentoos, adélies e cormorões. Saímos de lá por volta do meio dia rumo a Port Lockroy, a pequena e linda base inglesa que mantem seu estilo retrô da década de 50. Eu praticamente passei a tarde pilotando zodiacs entre o navio e terra, mas tive tempo suficiente para bater um bom papo com Sarah, a chefe da base, com quem tenho trocado idéias de como fazer ciência por ali sem comprometer o visual histórico da base. Lockroy é muito pequeno e por isso não é fácil manejar 60 passageiros ali. Mas apesar do stress, deu tudo certo e voltamos para borto as 6 da tarde para um excelente e tradicional Antarctic Barbecue – churrasco antártico. A festa se completou a noite ainda com o cômico Antarctic Quis, tocado pelo meu amigo Doutor Sérgio e seu companheiro neozelandês Jamie. Fomos dormir ainda ancorados em Port Lockroy e para nós (Felipe e eu) que dormimos no deck 2 na linha d’água, em cima da casa de maquinas, o silêncio foi providencial.
A entrada do canal de Lemaire
Uma foca dorminhoca bem no meio do canal
Eu e o Doutor Sérgio pela manhã no Canal de Lemaire

A pequena e bela Port Lockroy

O tradicional churrasco antártico
Dia 21/12
O tempo acabou virando e um frio sudoeste entrou em Paradise Bay, logo ali na curva de Port Lockeroy. Fizemos um tradicional 2 em 1, com cruzeiro de zodiac e desembarque na base argentina (abandonada) de Almirante Brown, com direito a baleias, icebergs e uma caminhada na montanha congelada. Bom para colocar o pulmão em dia. O esforço compensa a vista. Já pela tarde migramos para Ohrne Cove, algo como que 25 milhas mais ao norte, com mais uma escalada na neve daquelas de botar os pulmões para fora, mas com uma vista espetacular do canal de Gerlache. Apesar do tempo cinza escuro e muito frio, Orhne foi escolhido como nosso ponto para o Polar Plunge, onde os passageiros tem a oportunidade de pular na água “em pelo” e sentir o verdadeiro frio polar. Nada como uma sopa quente a noite e uma palestra memorável de nosso glaciologista Johnatan. A noite seria longa e pegaríamos mar aberto até as ilhas Sheetlands, nosso ponto de partida e agora de retorno para esse primeiro grupo. Apesar do balanço, a noite foi absolutamente tranquila.

Dia 22/12
Nossa manhã começou com a entrada em Deception Island, para um desembarque rápido em Whalers bay. Eu peguei um grupo de caminhada até the Neptune Windows, com uma vista fantástica para o estreito de Bransfield, apesar do vento frio que batia naquela hora. O céu abriu e permitiu umas belas fotos da baia dentre de Deception, embora o tempo tenha sido extremamente curto – apenas 1 hora e meia de desembarque. Mas deu até tempo para dar minha palestra sobre mudanças climáticas antes do almoço. Já tínhamos que pegar o mar novamente rumo a Yankee Harbour, nosso último ponto de desembarque dessa viagem e já no meio do caminho, o verdadeiro tempo Antártico entrou firme e forte. Nuvens negras, carregadas de neve, muito vento e um frio de rachar os dentes. Yankee é um local de desembarque relativamente fácil mas de uma caminhada muito longa, com vários elefantes marinhos e uma enorme colônia de pinguins gentoo. Foram 2 horas e meias de muito frio mas valeu a penas pelo cenário verdadeiramente polar. Voltamos a bordo para as festividades de encerramento dessa primeira semana, com brindes, coquetel de despedida, jantar e fotos e muitooooo trabalho para nós guias. Na verdade é na última noite que mais trabalhamos, sempre sorrindo e absolutamente uniformizados (com direito a gravata e tudo mais). Fui dormir bastante cansado mas contente e satisfeito de ter completado mais um grupo antártico sem maiores problemas. Novos amigos, novas histórias.
Algumas fotos da primeira viagem
Dia 23/12

Chegamos em Frei ainda na noite de 22/12 e o tempo não estava nada bom. Mesmo assim, a ordem era esperar e é o que estou fazendo exatamente agora. Todas as malas já estão em terra e aguardamos apenas a ordem para desembarcar os passageiros, o que deve acontecer logo depois do almoço. Estou ansioso pois o grupo que chega é o que irá comemorar o natal com a gente. Então...vamos a mais uma viagem polar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário