segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Natal Antártico

23/12 – O novo grupo de passageiros chegou debaixo de um vento frio e céu encoberto. Nuvens bem carregadas indicavam muita neve e o vento começou a soprar bem forte. Na verdade, só deu tempo de entrar no navio e o tempo fechou total. Muita neve e vento e mesmo em baixa velocidade começamos a bater firme nas ondas já na saída da baia Maxwell (onde fica a estação chilena de Frei). O pior de tudo isso é que a primeira coisa que fazemos a bordo é um treinamento de alarme de abandono, em caso de problemas. Todos os passageiros tem que estar no Panorama Lounge, que fica no deck 5, justamente o lugar que mais balança no barco. Nem preciso dizer que foi um desastre ! Muita gente mareada e ainda assim, a necessidade de completar o treinamento. Fizemos o possível, vários sacos de vômito distribuídos e o doutor trabalhando mais que o normal distribuindo comprimidos de Dramin mas que na verdade não funcionavam mais pois já estávamos balançando muito. Pulamos as apresentações do staff e do capitão Barrios, fomos ao jantar e pouquíssimos sobreviventes apareceram para comer nesse navio fantasma. O bate-bate foi noite adentro até estarmos em Gerlache norte, onde o vento não estava tão forte. Foi com certeza uma noite bem difícil.
O poste de direções na frente da base de Bellingshausen em Frei.
24/12 – a véspera de Natal foi uma surpresa. Chegamos em Mikkelsen pela manhã com um tempo absolutamente aberto, com sol e sem vento. Nem parecia que a poucas horas estávamos brigando com as ondas e o vento para chegar até ali. Óbvio que foi um baita alívio para os passageiros que acabaram aproveitando uma excelente manhã na ilha rodeado por pinguins e focas. Voltamos a bordo para o almoço de véspera, um cardápio especial, seguido de um cruzeiro de zodiac em Cierva Cove, como sempre cheia de icebergs, gelo e com direito a um show de uma baleia que ficou mergulhando curiosamente ao nosso redor. Tudo era um pouco especial, incluindo nossos chapéus de papai noel. A janta veio também com um cardápio artístico de Natal, preparado pelo nosso chef Daniel além de uma festinha privada com a tripulação. Mas como era Natal, ficamos divididos entre a nossa comemoração rápida (apenas uma meia hora, com presentes e chocolates), e com os passageiros, no Panorama Lounge. Mas na verdade, o que dá para perceber é que a maioria das famílias que vão visitar a Antártica nessa época, quer mesmo é fugir de festividades. Então, exatamente a meia-noite fui dormir já bastante cansado com o ritmo frenético de 7x7 dias, 24x24 horas de trabalho.

Mike de papai noel para a festinha da tripulação
25/12 – Para algumas pessoas, a comemoração de Natal é realmente no dia 25, como para Mike, nosso canadense especialista em mamíferos marinhos. Acordamos em Dorian Bay com ele gritando “oh oh oh Merry Christimas” no rádio, em uma manhã maravilhosamente clara. Eu adoro esse lugar. Foi ali que Amyr Klink passou o inverno com o Paratii e onde eu adoraria repetir o feito. O lugar é mágico, bonito e super protegido de icebergs. Ideal para colocar um veleiro por ali. Além disso, Dorian está ao lado de Port Lockroy, outro dos meus locais preferidos na península. Apesar da festa, não ficamos muito tempo em Dorian. Partimos logo antes do almoço rumo sul, para o canal de Lemaire e a estação de Verdnasky. Muito gelo estava fluindo rumo norte e o tempo virou rápido, com nuvens negras no horizonte e um clima bem característico antártico. Entramos pelo Lemaire e poucos tempo depois estávamos na frente do canal principal de acesso a Verdnasky, a base ucraniana instalada no meio das ilhas argentinas. O problema é que havia ainda muito gelo pelos canais e mais ainda, gelo triturado, brash ice, ao longo do canal principal. Colocamos os passageiros em Verdnasky e com a mudança da maré, todo o gelo do canal principal começou a entrar rápido entre as ilhas fechando completamente a passagem para o navio. Demorou um bom tempo até que o navio reposicionasse um pouco mais ao norte, onde não havia tanto gelo, e conseguíssemos com os botes abrir um pouco o caminho até o navio. Que aventura ! contamos com a experiência do grupo e as habilidades individuais, e conseguimos manejar a situação com perfeição. Os passageiros ganharam uma boa história para contar em casa e nós, uma boa salva de palmas durante a janta do dia de Natal.
É uma sensação no mínimo estranha. Já faz algum tempo que eu passo meu natal assim embarcado e tenho esse povo do navio como uma segunda família. Os meus “elefantes de Natal”, feitos de pano e com muito carinho pela Dona Silia, são ansiosamente esperados por todos a bordo. E mais uma vez meu natal foi completo.
Chegando em Lemaire com um tempo cinza e carregado

26/12 – O dia amanheceu muito feio e com muita neve em Paradise Bay, nosso destino da manhã pós Natal. O único movimento era do vai e vem dos pinguins na base Almirante Brown, onde desembarcamos. A muito tempo não vejo pessoas na base. Minha tarefa naquela manhã era uma das mais importantes – eu seria o “pirata do chocolate”. Metade dos passageiros desembarcaram na base e a outra metade seguiu para um cruzeiro de Zodiac, e eu, juntamente com Chica, nossa Shopkeeper, levei chocolate quente em um zodiac com uma bandeira enorme da Antarctica XXI para os passageiros uma meia hora depois, aparecendo de surpresa por detrás de um iceberg. Depois de um tempo, fazíamos uma troca de passageiros (os de terra embarcavam, e os dos zodiacs desembarcavam) e novamente o “pirata do chocolate” aparecia. Apesar de muita neve e frio, foi absolutamente divertido, ainda mais quando no final apareceu uma baleia mink curiosa com a nossa presença.
Os piratas do Chocolate (Chica e eu) em Paradise Bay
Barbecue em Orhne Harbour com a equipe do Hotel (nice guys)
Terminada a tarefa em Paradise, seguimos logo depois da curva para Orhne Harbour e dessa vez a neve aumentou muito. Mal conseguíamos ver o navio ancorado na baia. Orhne é um penhasco alto com uns 80-100 metros de altura, onde vários pinguins chinstrap fazem seus ninhos. Se para nós caminhar na neve com uma nevasca intensa já é difícil, imagine para um pinguim. Mesmo com esse frio todo e neve e vendo, os passageiros foram convidados a um banho polar (polar plunge) ali mesmo e seguimos direto para um churrasco antártico, com neve e tudo. Obviamente durou pouco, e antes mesmo das 8 hs da noite já estávamos dentro do Panorama Lounge comemorando um dia fantástico com o Antarctic Quiz, tocado pelo Jamie e Mike. Tínhamos um bom pedaço de mar para atravessar e o vento só aumentava. Comecei a sentir o balanço ainda de noite logo depois do Quiz e já imaginava que a manhã em Deception ia ser difícil.
Muita neve em Orhne Harbour
27/12 - A bateção de ondas foi até de manhã e acordamos em um verdadeiro rodeio com o navio para entrar em Deception. Pela inclinação do navio já dava para perceber que essa operação seria no limite. Dito e feito – 40 nós de vento e ondas mesmo na abrigada baia de Whalers, dentro da ilha. Fizemos uma rápida operação de desembarque com a grande maioria dos passageiros (alguns preferiram ficar a bordo) e logo nos espalhamos pela praia, depois de tirar uma foto com todo o grupo. Eu e Johnatan, o glaciologista do nosso grupo de guias, subimos até a janela de Netuno, na borda externa da ilha, enquanto que a outra parte do grupo ficou entre os destroços da antiga estação baleeira da ilha. Não durou mais do que uma hora e meia até eu voltar para a praia e seguir de volta para o navio, ajudando o Doutor Sérgio com uma paciente que não estava muito bem (na verdade trabalhei como contrapeso para o barco navegar melhor naquele tempo ruim). Saímos de Deception com vento pela popa o que fez com que o balanço diminuísse um pouco e eu pude dar minha palestra sobre mudanças climáticas calmamente. Rumamos durante o almoço para a ilha Half Moon, para a colônia de pinguins chinstrap. Por mais incrível que possa parecer, em menos de duas horas o céu abriu em um azul intenso e sem nuvens, e o vento praticamente ficou em zero. Nem parecia o inferno que tínhamos experimentado algumas horas antes. Essa é principal característica do clima antártico. Foi uma tarde longa e tranquila na ilha, inclusive com a presença de “Loveless”, um pinguim macarroni solteiríssimo que cisma ficar no meio da colônia de chinstraps. Passamos uma tarde magnífica por ali até que chegou a hora de dar adeus. Despedidas, farewell, coquetel de adeus e com um vento cada vez mais forte ancoramos por volta das 22 horas na baia Maxwell em frente a base Frei. Eu fui dormir cedo pois estava absolutamente cansado, e até deixei para escrever para casa no dia seguinte. Eu simplesmente precisava dormir.

Deception com vento e frio
28/12 – Ainda eram 06:00 hs da manhã quando eu levantei e fui fazer minhas tarefas de bordo (trocar informações no quadro de avisos, sobre fatos e ciência antártica) e dei um giro pelo navio. Lá do Panorama Lounge a base Frei parecia dormir ainda encoberta por espessas nuvens baixas. O tempo tinha novamente fechado e uma brisa constante e gelada soprava de norte. Ainda assim, parecia que teríamos operação de vôo como de costume, na parte da tarde. A manhã foi então organizada com palestras, uma de Nigel sobre história antártica e outra minha sobre gelo marinho. O almoço veio com a ordem de colocar todas as malas para fora do barco e prontamente transportamos tudo para terra. Estavamos em posição de troca de passageiros e minha tarefa era de taxi boat. Foram no mínimo 3 viagens longas até a praia, sob vento forte, e ao término eu ancorei meu zodiac para aguardar os próximos turistas que viriam no vôo. Good Bye, Adeus, e muitas despedidas e uma espera longa de mais ou menos 1 hora no frio da praia. O jeito era se exercitar um pouco para manter o calor. O vento diminuiu bastante e logo tínhamos uma fila com novos passageiros chegando – um enorme grupo de Hong Kong (chineses), algumas famílias europeias e outras poucas americanas, além de um grupo grande de Oman. Já de pronto deu para perceber que seria um grupo bem diferente do que tínhamos tido até o momento.

Todos dentro dos zodiacs e mais 3 viagens da praia ao barco, estávamos finalmente zarpando para mais uma Classica Antarctica, a viagem de ano novo. Dia 2 será o retorno a Frei.
O por do sol em Frei
Frei ainda dormindo

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Classica Antarctica

Dia 15/12 – Segundo Jump do meu Southbound
Apesar de eu já estar acostumado com a viagem até Punta Arenas, dessa vez o “chá de cadeira” foi enorme. A despedida em casa até que foi rápida como sempre. Mariana dormia e mal conseguiu acordar para me dar adeus, além da minha cachorrinha Lili, é claro, que estava toda sonolenta. Só minha mãe mesmo para acordar as 3 hs da manhã para fazer café. A viagem começa com a subida da serra rumo ao aeroporto em Guarulhos e para variar, TAM e LAN não se entendiam. Apesar da minha reserva ter o terminal 1 de Guarulhos referenciado, meu vôo estava programado para o novo terminal 4, mais de dois quilômetros da entrada do aeroporto. Acho que caminhei mais dentro do aeroporto do que quando dou umas corridinhas na praia. O vôo para o Chile saiu com mais de 2 horas e meia de atraso o que significava que eu perderia a conexão de Santiago até Punta Arenas. Chegando lá, já que tinha que esperar, fui para meu tradicional almoço no restaurante Gatsby, tipicamente chileno. Eu esperei mais 4 horas no aeroporto até pegar a conexão para Punta Arenas onde cheguei bem tarde. Já eram mais de meia noite quando joguei minhas coisas no chão e me larguei na confortável cama da hosteria da AXXI. (A empresa mantém quartos e cozinha para nós guias dentro do escritório, o que facilita nossa vida em Punta Arenas).
Meu almoço no Gatsby


Dia 16/12
Meu relógio biológico, apesar de ainda no horário brasileiro, começou a trabalhar no modo antártico. Eu simplesmente acordei totalmente as 6 da manhã, hora local. Minhas tarefas para o dia incluíam organizar o início da operação e pegar as roupas especiais, além da burocracia normal de visto de trabalho, contrato, banco, etc etc etc. Não parei um minuto sequer mas já começava a matar as saudades de Punta Arenas, do restaurante francês “La Cuisine”, onde fazemos nossas refeições, e de todo o pessoal do escritório. Nem vi o tempo passar e já eram mais de 23 horas quando finalmente fui deitar cansado mas feliz de ter finalmente começado minha temporada.
Os tradicionais cachorros de Punta Arenas
Dia 17/12
O Dia “D” é esse ! é o dia que chegam os passageiros, nos apresentamos a eles, e fazemos várias rodadas de palestras sobre a Antártica, principalmente o que “não se pode fazer” por lá, os riscos envolvidos e tudo mais. É um dia de muito trabalho na oficina da AXXI, com muito trabalho de computador baixando dados que vão servir para a operação. A noite a viagem começa com ume vento social – o coquetel de boas vindas e um jantar no belíssimo e antigo Hotel Nogueira no centro de Punta Arenas, com direito inclusive a um drink com a neta de Sir Ernest Shackleton que estava no hotel naquela noite.  Já sabíamos que o vôo poderia ocorrer na parte da manhã do dia seguinte mas dependiam das condições meteorológicas. Entramos então em standby mode – apenas aguardando. Sempre vamos ao bar do hotel Dreams que fica na frente do escritório, para iniciar a temporada com pé direito, mas dessa vez os drinks não duraram mais do que meia hora de tão cansados que todos estavam.
As palestras de boas vindas

Dia 18/12
Meu dia de JUMP ACROSS THE DRAKE começou as 6 horas da manhã. Tudo pronto e arrumado, apenas aguardamos o sinal para ir até o aeroporto, o que acabou acontecendo só as 10hs da manhã por causa de um problema logístico. O Hercules da FAB levando pesquisadores do PROANTAR brasileiro para a Antártica teve prioridade de vôo e acabou empurrando nossa janela de vôo para frente. Saímos de Punta Arenas depois do meio dia e quando chegamos na Antártica o aeroporto da base chilena Eduardo Frei estava simplesmente caótico, com dois Hércules (um do vôo e o outro quebrado, por conta de um acidente algumas semanas antes), e tivemos que posicionar nosso avião no meio da pista. Apesar do caos, logo fizemos uma linha de passageiros rumo a praia e apesar do tempo curto pude dar um longo abraço em Mariano e Loli, meus queridos amigos que estavam deixando a Antártica pois nossa equipe estava sendo trocada ali.
Reencontros...esse é o sentimento forte que vem cada vez que coloco os pés na Antártica. É ali que eu reencontro meus grandes amigos, muitas vezes ainda na pista de pouso de Frei. E um local de boas lembranças.
A operação foi rápida – descemos a pista (cheia de neve para variar), botes na água com vento forte e algumas ondas chatas, transporte de bagagens, e em mais ou menos 1 hora e meia já estávamos navegando rumo ao Estreito de Bransfield com todos os passageiros já confortavelmente alojados em seus camarotes. Meu colega de quarto nessa temporada é o montanhista Felipe, que eu estava conhecendo ali naquele momento.
A correria foi enorme até a noite mas mesmo assim pude cumprimentar cada um dos meus amigos e conhecidos do navio, do hotel do navio, sala de maquinas, marinheiros, ponte, incluindo a novidade do ano – Capitão Barrios, um excelente companheiro antártico com o qual eu trabalhei nos últimos 5 anos, ele como primeiro oficial e agora comandante da nossa casa flutuante. Fui dormir feliz por estar mais uma vez em águas antárticas.
A caminho da praia depois de desembarcar do avião

Dia 19/12
Mikkelsen Island é uma pequena ilhota já na entrada do canal de Gerlache, ao sul da Ilha Trinity. Uma pequena mas bem organizada colônia de pinguins gentoos cresce ali ao redor da uma cabana argentina abandonada. Nosso primeiro desembarque ocorreu sem maiores problemas, eu pilotando meu zodiac como taxi do navio para terra e depois uma boa caminhada ao redor da ilha. Achei muita neve em comparação com os outros anos, e uma neve bem dura. Foi o primeiro desembarque também para os passageiros daquela viagem e bom para ajustar nossa operação. Bem Jackson é nosso líder de expedição e uma pessoal muito organizada e amável. Tudo absolutamente tranquilo e sem maiores atropelos. Tanto que terminamos em tempo para um bem servido almoço a bordo no horário programado.
A tarde cruzamos o canal de Gerlache até Cierva Cove, o paraíso dos gelos flutuantes. Já começamos de pronto a avistar baleias ao longe e a programação era sair com os zodiacs em um cruzeiro pela baia. Eu fiz par com minha colega Sandra Walser, a suíça responsável pelo programa de qualidade a bordo e uma amiga de muitos anos antárticos. Apesar do dia ter começado cinza o tempo parecia abrir cada vez mais o que prometia sol para nossa parte sul da viagem. Baleias, por de sol, um excelente cruzeiro e a alegria de poder visitar novamente esses lugares mágicos da Antártica. Fomos dormir já a caminho da passagem sul de Lemaire, e tínhamos quase 100 milhas pela frente para cruzar a noite.
Belo por de sol em Gerlache
Dia 20/12
As 7 horas da manhã estávamos as portas de Lemaire com um tempo maravilhoso, céu azul, sem vento e sol mais ou menos 1 palmo acima do horizonte. Nosso destino era a Ilha Petermann, mas com pouquíssimo tempo disponível já que as condições de gelo fizeram com que a navegação se tornasse mais lenta. O sol estava forte e uma camada mais grossa de protetor solar foi necessário para enfrentar a luminosidade de Petermann, com muita neve e já os primeiros filhotes de pinguins adélie aparecendo. A colônia de Petermann parecia firme e forte, com gentoos, adélies e cormorões. Saímos de lá por volta do meio dia rumo a Port Lockroy, a pequena e linda base inglesa que mantem seu estilo retrô da década de 50. Eu praticamente passei a tarde pilotando zodiacs entre o navio e terra, mas tive tempo suficiente para bater um bom papo com Sarah, a chefe da base, com quem tenho trocado idéias de como fazer ciência por ali sem comprometer o visual histórico da base. Lockroy é muito pequeno e por isso não é fácil manejar 60 passageiros ali. Mas apesar do stress, deu tudo certo e voltamos para borto as 6 da tarde para um excelente e tradicional Antarctic Barbecue – churrasco antártico. A festa se completou a noite ainda com o cômico Antarctic Quis, tocado pelo meu amigo Doutor Sérgio e seu companheiro neozelandês Jamie. Fomos dormir ainda ancorados em Port Lockroy e para nós (Felipe e eu) que dormimos no deck 2 na linha d’água, em cima da casa de maquinas, o silêncio foi providencial.
A entrada do canal de Lemaire
Uma foca dorminhoca bem no meio do canal
Eu e o Doutor Sérgio pela manhã no Canal de Lemaire

A pequena e bela Port Lockroy

O tradicional churrasco antártico
Dia 21/12
O tempo acabou virando e um frio sudoeste entrou em Paradise Bay, logo ali na curva de Port Lockeroy. Fizemos um tradicional 2 em 1, com cruzeiro de zodiac e desembarque na base argentina (abandonada) de Almirante Brown, com direito a baleias, icebergs e uma caminhada na montanha congelada. Bom para colocar o pulmão em dia. O esforço compensa a vista. Já pela tarde migramos para Ohrne Cove, algo como que 25 milhas mais ao norte, com mais uma escalada na neve daquelas de botar os pulmões para fora, mas com uma vista espetacular do canal de Gerlache. Apesar do tempo cinza escuro e muito frio, Orhne foi escolhido como nosso ponto para o Polar Plunge, onde os passageiros tem a oportunidade de pular na água “em pelo” e sentir o verdadeiro frio polar. Nada como uma sopa quente a noite e uma palestra memorável de nosso glaciologista Johnatan. A noite seria longa e pegaríamos mar aberto até as ilhas Sheetlands, nosso ponto de partida e agora de retorno para esse primeiro grupo. Apesar do balanço, a noite foi absolutamente tranquila.

Dia 22/12
Nossa manhã começou com a entrada em Deception Island, para um desembarque rápido em Whalers bay. Eu peguei um grupo de caminhada até the Neptune Windows, com uma vista fantástica para o estreito de Bransfield, apesar do vento frio que batia naquela hora. O céu abriu e permitiu umas belas fotos da baia dentre de Deception, embora o tempo tenha sido extremamente curto – apenas 1 hora e meia de desembarque. Mas deu até tempo para dar minha palestra sobre mudanças climáticas antes do almoço. Já tínhamos que pegar o mar novamente rumo a Yankee Harbour, nosso último ponto de desembarque dessa viagem e já no meio do caminho, o verdadeiro tempo Antártico entrou firme e forte. Nuvens negras, carregadas de neve, muito vento e um frio de rachar os dentes. Yankee é um local de desembarque relativamente fácil mas de uma caminhada muito longa, com vários elefantes marinhos e uma enorme colônia de pinguins gentoo. Foram 2 horas e meias de muito frio mas valeu a penas pelo cenário verdadeiramente polar. Voltamos a bordo para as festividades de encerramento dessa primeira semana, com brindes, coquetel de despedida, jantar e fotos e muitooooo trabalho para nós guias. Na verdade é na última noite que mais trabalhamos, sempre sorrindo e absolutamente uniformizados (com direito a gravata e tudo mais). Fui dormir bastante cansado mas contente e satisfeito de ter completado mais um grupo antártico sem maiores problemas. Novos amigos, novas histórias.
Algumas fotos da primeira viagem
Dia 23/12

Chegamos em Frei ainda na noite de 22/12 e o tempo não estava nada bom. Mesmo assim, a ordem era esperar e é o que estou fazendo exatamente agora. Todas as malas já estão em terra e aguardamos apenas a ordem para desembarcar os passageiros, o que deve acontecer logo depois do almoço. Estou ansioso pois o grupo que chega é o que irá comemorar o natal com a gente. Então...vamos a mais uma viagem polar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

SOUTHBOUND

A sensação é de que estou 'quase' pronto. Ainda tenho milhões de pequenas coisas para acertar e tentar encaixar tudo em uma única mochila. Mas o primeiro 'salto' rumo ao sul eu já tomei - Rio->Santos, minha base, onde estão todas as roupas de frio, luvas, meias grossas e mais um monte de tralhas que eu levo para minha temporada polar.
Na rodoviária do Rio rumo a Santos, a primeira parada no caminho para o Sul

Tem uma parte delicada nessa preparação que é o material científico, não só para as palestras (quase que diárias) como também para o programa de ciência a bordo que este ano terá um evento especial, uma "aluna" que irá realizar um trabalho de observação científica e experimentação a bordo, em uma das viagens. Já estou com um HD quase pronto mas ainda preciso arrumar meu computador com tudo isso. São apenas mais 5 dias para o salto pelos Andes rumo a Punta Arenas...espero ter pique para terminar tudo até lá. Além disso tem a saudades da família. Nesses cinco dias tenho que suprir um pouco da minha ausência durante o próximo mês. Mas todos entram no ritmo antártico nessa época.

Um dos itens mais importantes já está pronto: meus tradicionais elefantes de natal. Eles são colocados na noite de natal presos no teto do nosso escritório a bordo do navio, e trazem boa sorte a todos os meus colegas guias, minha família antártica.
Os elefantes de Natal
"Southbound" é rumo sul. Muitos passos são necessários antes de chegar lá, mas já estou a caminho..

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Só mais duas semanas.....

Sabe aquela teoria do bom velinho alemão chamado Albert ? De que o tempo se dilata e contrai ? Deve ter algum buraco de minhoca rondando por ai porque as vezes parece que o tempo voa e outras ele fica super devagar (rsrs).

Faltam 14 dias e a quantidade de coisas para fazer antes de viajar se multiplica. E para dar uma pitada de suspense, a poucos dias um Hércules da FAB se acidentou na pista (graças a Deus sem feridos) mas que bloqueou totalmente o uso da pista para outros aviões. Com isso, foram canceladas 3 viagens da AXXI, retornando apenas dia 13 de Dezembro, exatamente 1 viagem antes da minha.


Foto do jornal El Mercurio mostrando o Hércules na pista.
O meu último final de semana foi de organização, roupas, luvas e meias, muitas e muitas meias (são praticamente dois pares por dia !). Embora minha mala não vá tão cheia (de roupas) porque muitas das roupas de frio estão lá em Punta Arenas, dessa vez eu tenho um mini laboratório para levar, com rede de plancton, garrafa de coleta, instrumentos, sensores, e uma infinidade de pequenas coisas. 
Enquanto isso, fico sonhando com minha casa de verão. E fuçando nas coisas hoje deparei com uma bela foto de 2013 do Ocean Nova "estacionado" em uma placa de gelo na Ilha Deception. 
o Ocean Nova estacionado no gelo
São essas lembranças que fazem o sangue acelerar nas veias, e o tempo dilata (ou comprime, dependendo do humor), mas os dias seguem passando e logo mais tomo meu rumo sul. Southbound !!! finalmente !.