segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Natal Antártico

23/12 – O novo grupo de passageiros chegou debaixo de um vento frio e céu encoberto. Nuvens bem carregadas indicavam muita neve e o vento começou a soprar bem forte. Na verdade, só deu tempo de entrar no navio e o tempo fechou total. Muita neve e vento e mesmo em baixa velocidade começamos a bater firme nas ondas já na saída da baia Maxwell (onde fica a estação chilena de Frei). O pior de tudo isso é que a primeira coisa que fazemos a bordo é um treinamento de alarme de abandono, em caso de problemas. Todos os passageiros tem que estar no Panorama Lounge, que fica no deck 5, justamente o lugar que mais balança no barco. Nem preciso dizer que foi um desastre ! Muita gente mareada e ainda assim, a necessidade de completar o treinamento. Fizemos o possível, vários sacos de vômito distribuídos e o doutor trabalhando mais que o normal distribuindo comprimidos de Dramin mas que na verdade não funcionavam mais pois já estávamos balançando muito. Pulamos as apresentações do staff e do capitão Barrios, fomos ao jantar e pouquíssimos sobreviventes apareceram para comer nesse navio fantasma. O bate-bate foi noite adentro até estarmos em Gerlache norte, onde o vento não estava tão forte. Foi com certeza uma noite bem difícil.
O poste de direções na frente da base de Bellingshausen em Frei.
24/12 – a véspera de Natal foi uma surpresa. Chegamos em Mikkelsen pela manhã com um tempo absolutamente aberto, com sol e sem vento. Nem parecia que a poucas horas estávamos brigando com as ondas e o vento para chegar até ali. Óbvio que foi um baita alívio para os passageiros que acabaram aproveitando uma excelente manhã na ilha rodeado por pinguins e focas. Voltamos a bordo para o almoço de véspera, um cardápio especial, seguido de um cruzeiro de zodiac em Cierva Cove, como sempre cheia de icebergs, gelo e com direito a um show de uma baleia que ficou mergulhando curiosamente ao nosso redor. Tudo era um pouco especial, incluindo nossos chapéus de papai noel. A janta veio também com um cardápio artístico de Natal, preparado pelo nosso chef Daniel além de uma festinha privada com a tripulação. Mas como era Natal, ficamos divididos entre a nossa comemoração rápida (apenas uma meia hora, com presentes e chocolates), e com os passageiros, no Panorama Lounge. Mas na verdade, o que dá para perceber é que a maioria das famílias que vão visitar a Antártica nessa época, quer mesmo é fugir de festividades. Então, exatamente a meia-noite fui dormir já bastante cansado com o ritmo frenético de 7x7 dias, 24x24 horas de trabalho.

Mike de papai noel para a festinha da tripulação
25/12 – Para algumas pessoas, a comemoração de Natal é realmente no dia 25, como para Mike, nosso canadense especialista em mamíferos marinhos. Acordamos em Dorian Bay com ele gritando “oh oh oh Merry Christimas” no rádio, em uma manhã maravilhosamente clara. Eu adoro esse lugar. Foi ali que Amyr Klink passou o inverno com o Paratii e onde eu adoraria repetir o feito. O lugar é mágico, bonito e super protegido de icebergs. Ideal para colocar um veleiro por ali. Além disso, Dorian está ao lado de Port Lockroy, outro dos meus locais preferidos na península. Apesar da festa, não ficamos muito tempo em Dorian. Partimos logo antes do almoço rumo sul, para o canal de Lemaire e a estação de Verdnasky. Muito gelo estava fluindo rumo norte e o tempo virou rápido, com nuvens negras no horizonte e um clima bem característico antártico. Entramos pelo Lemaire e poucos tempo depois estávamos na frente do canal principal de acesso a Verdnasky, a base ucraniana instalada no meio das ilhas argentinas. O problema é que havia ainda muito gelo pelos canais e mais ainda, gelo triturado, brash ice, ao longo do canal principal. Colocamos os passageiros em Verdnasky e com a mudança da maré, todo o gelo do canal principal começou a entrar rápido entre as ilhas fechando completamente a passagem para o navio. Demorou um bom tempo até que o navio reposicionasse um pouco mais ao norte, onde não havia tanto gelo, e conseguíssemos com os botes abrir um pouco o caminho até o navio. Que aventura ! contamos com a experiência do grupo e as habilidades individuais, e conseguimos manejar a situação com perfeição. Os passageiros ganharam uma boa história para contar em casa e nós, uma boa salva de palmas durante a janta do dia de Natal.
É uma sensação no mínimo estranha. Já faz algum tempo que eu passo meu natal assim embarcado e tenho esse povo do navio como uma segunda família. Os meus “elefantes de Natal”, feitos de pano e com muito carinho pela Dona Silia, são ansiosamente esperados por todos a bordo. E mais uma vez meu natal foi completo.
Chegando em Lemaire com um tempo cinza e carregado

26/12 – O dia amanheceu muito feio e com muita neve em Paradise Bay, nosso destino da manhã pós Natal. O único movimento era do vai e vem dos pinguins na base Almirante Brown, onde desembarcamos. A muito tempo não vejo pessoas na base. Minha tarefa naquela manhã era uma das mais importantes – eu seria o “pirata do chocolate”. Metade dos passageiros desembarcaram na base e a outra metade seguiu para um cruzeiro de Zodiac, e eu, juntamente com Chica, nossa Shopkeeper, levei chocolate quente em um zodiac com uma bandeira enorme da Antarctica XXI para os passageiros uma meia hora depois, aparecendo de surpresa por detrás de um iceberg. Depois de um tempo, fazíamos uma troca de passageiros (os de terra embarcavam, e os dos zodiacs desembarcavam) e novamente o “pirata do chocolate” aparecia. Apesar de muita neve e frio, foi absolutamente divertido, ainda mais quando no final apareceu uma baleia mink curiosa com a nossa presença.
Os piratas do Chocolate (Chica e eu) em Paradise Bay
Barbecue em Orhne Harbour com a equipe do Hotel (nice guys)
Terminada a tarefa em Paradise, seguimos logo depois da curva para Orhne Harbour e dessa vez a neve aumentou muito. Mal conseguíamos ver o navio ancorado na baia. Orhne é um penhasco alto com uns 80-100 metros de altura, onde vários pinguins chinstrap fazem seus ninhos. Se para nós caminhar na neve com uma nevasca intensa já é difícil, imagine para um pinguim. Mesmo com esse frio todo e neve e vendo, os passageiros foram convidados a um banho polar (polar plunge) ali mesmo e seguimos direto para um churrasco antártico, com neve e tudo. Obviamente durou pouco, e antes mesmo das 8 hs da noite já estávamos dentro do Panorama Lounge comemorando um dia fantástico com o Antarctic Quiz, tocado pelo Jamie e Mike. Tínhamos um bom pedaço de mar para atravessar e o vento só aumentava. Comecei a sentir o balanço ainda de noite logo depois do Quiz e já imaginava que a manhã em Deception ia ser difícil.
Muita neve em Orhne Harbour
27/12 - A bateção de ondas foi até de manhã e acordamos em um verdadeiro rodeio com o navio para entrar em Deception. Pela inclinação do navio já dava para perceber que essa operação seria no limite. Dito e feito – 40 nós de vento e ondas mesmo na abrigada baia de Whalers, dentro da ilha. Fizemos uma rápida operação de desembarque com a grande maioria dos passageiros (alguns preferiram ficar a bordo) e logo nos espalhamos pela praia, depois de tirar uma foto com todo o grupo. Eu e Johnatan, o glaciologista do nosso grupo de guias, subimos até a janela de Netuno, na borda externa da ilha, enquanto que a outra parte do grupo ficou entre os destroços da antiga estação baleeira da ilha. Não durou mais do que uma hora e meia até eu voltar para a praia e seguir de volta para o navio, ajudando o Doutor Sérgio com uma paciente que não estava muito bem (na verdade trabalhei como contrapeso para o barco navegar melhor naquele tempo ruim). Saímos de Deception com vento pela popa o que fez com que o balanço diminuísse um pouco e eu pude dar minha palestra sobre mudanças climáticas calmamente. Rumamos durante o almoço para a ilha Half Moon, para a colônia de pinguins chinstrap. Por mais incrível que possa parecer, em menos de duas horas o céu abriu em um azul intenso e sem nuvens, e o vento praticamente ficou em zero. Nem parecia o inferno que tínhamos experimentado algumas horas antes. Essa é principal característica do clima antártico. Foi uma tarde longa e tranquila na ilha, inclusive com a presença de “Loveless”, um pinguim macarroni solteiríssimo que cisma ficar no meio da colônia de chinstraps. Passamos uma tarde magnífica por ali até que chegou a hora de dar adeus. Despedidas, farewell, coquetel de adeus e com um vento cada vez mais forte ancoramos por volta das 22 horas na baia Maxwell em frente a base Frei. Eu fui dormir cedo pois estava absolutamente cansado, e até deixei para escrever para casa no dia seguinte. Eu simplesmente precisava dormir.

Deception com vento e frio
28/12 – Ainda eram 06:00 hs da manhã quando eu levantei e fui fazer minhas tarefas de bordo (trocar informações no quadro de avisos, sobre fatos e ciência antártica) e dei um giro pelo navio. Lá do Panorama Lounge a base Frei parecia dormir ainda encoberta por espessas nuvens baixas. O tempo tinha novamente fechado e uma brisa constante e gelada soprava de norte. Ainda assim, parecia que teríamos operação de vôo como de costume, na parte da tarde. A manhã foi então organizada com palestras, uma de Nigel sobre história antártica e outra minha sobre gelo marinho. O almoço veio com a ordem de colocar todas as malas para fora do barco e prontamente transportamos tudo para terra. Estavamos em posição de troca de passageiros e minha tarefa era de taxi boat. Foram no mínimo 3 viagens longas até a praia, sob vento forte, e ao término eu ancorei meu zodiac para aguardar os próximos turistas que viriam no vôo. Good Bye, Adeus, e muitas despedidas e uma espera longa de mais ou menos 1 hora no frio da praia. O jeito era se exercitar um pouco para manter o calor. O vento diminuiu bastante e logo tínhamos uma fila com novos passageiros chegando – um enorme grupo de Hong Kong (chineses), algumas famílias europeias e outras poucas americanas, além de um grupo grande de Oman. Já de pronto deu para perceber que seria um grupo bem diferente do que tínhamos tido até o momento.

Todos dentro dos zodiacs e mais 3 viagens da praia ao barco, estávamos finalmente zarpando para mais uma Classica Antarctica, a viagem de ano novo. Dia 2 será o retorno a Frei.
O por do sol em Frei
Frei ainda dormindo

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Classica Antarctica

Dia 15/12 – Segundo Jump do meu Southbound
Apesar de eu já estar acostumado com a viagem até Punta Arenas, dessa vez o “chá de cadeira” foi enorme. A despedida em casa até que foi rápida como sempre. Mariana dormia e mal conseguiu acordar para me dar adeus, além da minha cachorrinha Lili, é claro, que estava toda sonolenta. Só minha mãe mesmo para acordar as 3 hs da manhã para fazer café. A viagem começa com a subida da serra rumo ao aeroporto em Guarulhos e para variar, TAM e LAN não se entendiam. Apesar da minha reserva ter o terminal 1 de Guarulhos referenciado, meu vôo estava programado para o novo terminal 4, mais de dois quilômetros da entrada do aeroporto. Acho que caminhei mais dentro do aeroporto do que quando dou umas corridinhas na praia. O vôo para o Chile saiu com mais de 2 horas e meia de atraso o que significava que eu perderia a conexão de Santiago até Punta Arenas. Chegando lá, já que tinha que esperar, fui para meu tradicional almoço no restaurante Gatsby, tipicamente chileno. Eu esperei mais 4 horas no aeroporto até pegar a conexão para Punta Arenas onde cheguei bem tarde. Já eram mais de meia noite quando joguei minhas coisas no chão e me larguei na confortável cama da hosteria da AXXI. (A empresa mantém quartos e cozinha para nós guias dentro do escritório, o que facilita nossa vida em Punta Arenas).
Meu almoço no Gatsby


Dia 16/12
Meu relógio biológico, apesar de ainda no horário brasileiro, começou a trabalhar no modo antártico. Eu simplesmente acordei totalmente as 6 da manhã, hora local. Minhas tarefas para o dia incluíam organizar o início da operação e pegar as roupas especiais, além da burocracia normal de visto de trabalho, contrato, banco, etc etc etc. Não parei um minuto sequer mas já começava a matar as saudades de Punta Arenas, do restaurante francês “La Cuisine”, onde fazemos nossas refeições, e de todo o pessoal do escritório. Nem vi o tempo passar e já eram mais de 23 horas quando finalmente fui deitar cansado mas feliz de ter finalmente começado minha temporada.
Os tradicionais cachorros de Punta Arenas
Dia 17/12
O Dia “D” é esse ! é o dia que chegam os passageiros, nos apresentamos a eles, e fazemos várias rodadas de palestras sobre a Antártica, principalmente o que “não se pode fazer” por lá, os riscos envolvidos e tudo mais. É um dia de muito trabalho na oficina da AXXI, com muito trabalho de computador baixando dados que vão servir para a operação. A noite a viagem começa com ume vento social – o coquetel de boas vindas e um jantar no belíssimo e antigo Hotel Nogueira no centro de Punta Arenas, com direito inclusive a um drink com a neta de Sir Ernest Shackleton que estava no hotel naquela noite.  Já sabíamos que o vôo poderia ocorrer na parte da manhã do dia seguinte mas dependiam das condições meteorológicas. Entramos então em standby mode – apenas aguardando. Sempre vamos ao bar do hotel Dreams que fica na frente do escritório, para iniciar a temporada com pé direito, mas dessa vez os drinks não duraram mais do que meia hora de tão cansados que todos estavam.
As palestras de boas vindas

Dia 18/12
Meu dia de JUMP ACROSS THE DRAKE começou as 6 horas da manhã. Tudo pronto e arrumado, apenas aguardamos o sinal para ir até o aeroporto, o que acabou acontecendo só as 10hs da manhã por causa de um problema logístico. O Hercules da FAB levando pesquisadores do PROANTAR brasileiro para a Antártica teve prioridade de vôo e acabou empurrando nossa janela de vôo para frente. Saímos de Punta Arenas depois do meio dia e quando chegamos na Antártica o aeroporto da base chilena Eduardo Frei estava simplesmente caótico, com dois Hércules (um do vôo e o outro quebrado, por conta de um acidente algumas semanas antes), e tivemos que posicionar nosso avião no meio da pista. Apesar do caos, logo fizemos uma linha de passageiros rumo a praia e apesar do tempo curto pude dar um longo abraço em Mariano e Loli, meus queridos amigos que estavam deixando a Antártica pois nossa equipe estava sendo trocada ali.
Reencontros...esse é o sentimento forte que vem cada vez que coloco os pés na Antártica. É ali que eu reencontro meus grandes amigos, muitas vezes ainda na pista de pouso de Frei. E um local de boas lembranças.
A operação foi rápida – descemos a pista (cheia de neve para variar), botes na água com vento forte e algumas ondas chatas, transporte de bagagens, e em mais ou menos 1 hora e meia já estávamos navegando rumo ao Estreito de Bransfield com todos os passageiros já confortavelmente alojados em seus camarotes. Meu colega de quarto nessa temporada é o montanhista Felipe, que eu estava conhecendo ali naquele momento.
A correria foi enorme até a noite mas mesmo assim pude cumprimentar cada um dos meus amigos e conhecidos do navio, do hotel do navio, sala de maquinas, marinheiros, ponte, incluindo a novidade do ano – Capitão Barrios, um excelente companheiro antártico com o qual eu trabalhei nos últimos 5 anos, ele como primeiro oficial e agora comandante da nossa casa flutuante. Fui dormir feliz por estar mais uma vez em águas antárticas.
A caminho da praia depois de desembarcar do avião

Dia 19/12
Mikkelsen Island é uma pequena ilhota já na entrada do canal de Gerlache, ao sul da Ilha Trinity. Uma pequena mas bem organizada colônia de pinguins gentoos cresce ali ao redor da uma cabana argentina abandonada. Nosso primeiro desembarque ocorreu sem maiores problemas, eu pilotando meu zodiac como taxi do navio para terra e depois uma boa caminhada ao redor da ilha. Achei muita neve em comparação com os outros anos, e uma neve bem dura. Foi o primeiro desembarque também para os passageiros daquela viagem e bom para ajustar nossa operação. Bem Jackson é nosso líder de expedição e uma pessoal muito organizada e amável. Tudo absolutamente tranquilo e sem maiores atropelos. Tanto que terminamos em tempo para um bem servido almoço a bordo no horário programado.
A tarde cruzamos o canal de Gerlache até Cierva Cove, o paraíso dos gelos flutuantes. Já começamos de pronto a avistar baleias ao longe e a programação era sair com os zodiacs em um cruzeiro pela baia. Eu fiz par com minha colega Sandra Walser, a suíça responsável pelo programa de qualidade a bordo e uma amiga de muitos anos antárticos. Apesar do dia ter começado cinza o tempo parecia abrir cada vez mais o que prometia sol para nossa parte sul da viagem. Baleias, por de sol, um excelente cruzeiro e a alegria de poder visitar novamente esses lugares mágicos da Antártica. Fomos dormir já a caminho da passagem sul de Lemaire, e tínhamos quase 100 milhas pela frente para cruzar a noite.
Belo por de sol em Gerlache
Dia 20/12
As 7 horas da manhã estávamos as portas de Lemaire com um tempo maravilhoso, céu azul, sem vento e sol mais ou menos 1 palmo acima do horizonte. Nosso destino era a Ilha Petermann, mas com pouquíssimo tempo disponível já que as condições de gelo fizeram com que a navegação se tornasse mais lenta. O sol estava forte e uma camada mais grossa de protetor solar foi necessário para enfrentar a luminosidade de Petermann, com muita neve e já os primeiros filhotes de pinguins adélie aparecendo. A colônia de Petermann parecia firme e forte, com gentoos, adélies e cormorões. Saímos de lá por volta do meio dia rumo a Port Lockroy, a pequena e linda base inglesa que mantem seu estilo retrô da década de 50. Eu praticamente passei a tarde pilotando zodiacs entre o navio e terra, mas tive tempo suficiente para bater um bom papo com Sarah, a chefe da base, com quem tenho trocado idéias de como fazer ciência por ali sem comprometer o visual histórico da base. Lockroy é muito pequeno e por isso não é fácil manejar 60 passageiros ali. Mas apesar do stress, deu tudo certo e voltamos para borto as 6 da tarde para um excelente e tradicional Antarctic Barbecue – churrasco antártico. A festa se completou a noite ainda com o cômico Antarctic Quis, tocado pelo meu amigo Doutor Sérgio e seu companheiro neozelandês Jamie. Fomos dormir ainda ancorados em Port Lockroy e para nós (Felipe e eu) que dormimos no deck 2 na linha d’água, em cima da casa de maquinas, o silêncio foi providencial.
A entrada do canal de Lemaire
Uma foca dorminhoca bem no meio do canal
Eu e o Doutor Sérgio pela manhã no Canal de Lemaire

A pequena e bela Port Lockroy

O tradicional churrasco antártico
Dia 21/12
O tempo acabou virando e um frio sudoeste entrou em Paradise Bay, logo ali na curva de Port Lockeroy. Fizemos um tradicional 2 em 1, com cruzeiro de zodiac e desembarque na base argentina (abandonada) de Almirante Brown, com direito a baleias, icebergs e uma caminhada na montanha congelada. Bom para colocar o pulmão em dia. O esforço compensa a vista. Já pela tarde migramos para Ohrne Cove, algo como que 25 milhas mais ao norte, com mais uma escalada na neve daquelas de botar os pulmões para fora, mas com uma vista espetacular do canal de Gerlache. Apesar do tempo cinza escuro e muito frio, Orhne foi escolhido como nosso ponto para o Polar Plunge, onde os passageiros tem a oportunidade de pular na água “em pelo” e sentir o verdadeiro frio polar. Nada como uma sopa quente a noite e uma palestra memorável de nosso glaciologista Johnatan. A noite seria longa e pegaríamos mar aberto até as ilhas Sheetlands, nosso ponto de partida e agora de retorno para esse primeiro grupo. Apesar do balanço, a noite foi absolutamente tranquila.

Dia 22/12
Nossa manhã começou com a entrada em Deception Island, para um desembarque rápido em Whalers bay. Eu peguei um grupo de caminhada até the Neptune Windows, com uma vista fantástica para o estreito de Bransfield, apesar do vento frio que batia naquela hora. O céu abriu e permitiu umas belas fotos da baia dentre de Deception, embora o tempo tenha sido extremamente curto – apenas 1 hora e meia de desembarque. Mas deu até tempo para dar minha palestra sobre mudanças climáticas antes do almoço. Já tínhamos que pegar o mar novamente rumo a Yankee Harbour, nosso último ponto de desembarque dessa viagem e já no meio do caminho, o verdadeiro tempo Antártico entrou firme e forte. Nuvens negras, carregadas de neve, muito vento e um frio de rachar os dentes. Yankee é um local de desembarque relativamente fácil mas de uma caminhada muito longa, com vários elefantes marinhos e uma enorme colônia de pinguins gentoo. Foram 2 horas e meias de muito frio mas valeu a penas pelo cenário verdadeiramente polar. Voltamos a bordo para as festividades de encerramento dessa primeira semana, com brindes, coquetel de despedida, jantar e fotos e muitooooo trabalho para nós guias. Na verdade é na última noite que mais trabalhamos, sempre sorrindo e absolutamente uniformizados (com direito a gravata e tudo mais). Fui dormir bastante cansado mas contente e satisfeito de ter completado mais um grupo antártico sem maiores problemas. Novos amigos, novas histórias.
Algumas fotos da primeira viagem
Dia 23/12

Chegamos em Frei ainda na noite de 22/12 e o tempo não estava nada bom. Mesmo assim, a ordem era esperar e é o que estou fazendo exatamente agora. Todas as malas já estão em terra e aguardamos apenas a ordem para desembarcar os passageiros, o que deve acontecer logo depois do almoço. Estou ansioso pois o grupo que chega é o que irá comemorar o natal com a gente. Então...vamos a mais uma viagem polar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

SOUTHBOUND

A sensação é de que estou 'quase' pronto. Ainda tenho milhões de pequenas coisas para acertar e tentar encaixar tudo em uma única mochila. Mas o primeiro 'salto' rumo ao sul eu já tomei - Rio->Santos, minha base, onde estão todas as roupas de frio, luvas, meias grossas e mais um monte de tralhas que eu levo para minha temporada polar.
Na rodoviária do Rio rumo a Santos, a primeira parada no caminho para o Sul

Tem uma parte delicada nessa preparação que é o material científico, não só para as palestras (quase que diárias) como também para o programa de ciência a bordo que este ano terá um evento especial, uma "aluna" que irá realizar um trabalho de observação científica e experimentação a bordo, em uma das viagens. Já estou com um HD quase pronto mas ainda preciso arrumar meu computador com tudo isso. São apenas mais 5 dias para o salto pelos Andes rumo a Punta Arenas...espero ter pique para terminar tudo até lá. Além disso tem a saudades da família. Nesses cinco dias tenho que suprir um pouco da minha ausência durante o próximo mês. Mas todos entram no ritmo antártico nessa época.

Um dos itens mais importantes já está pronto: meus tradicionais elefantes de natal. Eles são colocados na noite de natal presos no teto do nosso escritório a bordo do navio, e trazem boa sorte a todos os meus colegas guias, minha família antártica.
Os elefantes de Natal
"Southbound" é rumo sul. Muitos passos são necessários antes de chegar lá, mas já estou a caminho..

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Só mais duas semanas.....

Sabe aquela teoria do bom velinho alemão chamado Albert ? De que o tempo se dilata e contrai ? Deve ter algum buraco de minhoca rondando por ai porque as vezes parece que o tempo voa e outras ele fica super devagar (rsrs).

Faltam 14 dias e a quantidade de coisas para fazer antes de viajar se multiplica. E para dar uma pitada de suspense, a poucos dias um Hércules da FAB se acidentou na pista (graças a Deus sem feridos) mas que bloqueou totalmente o uso da pista para outros aviões. Com isso, foram canceladas 3 viagens da AXXI, retornando apenas dia 13 de Dezembro, exatamente 1 viagem antes da minha.


Foto do jornal El Mercurio mostrando o Hércules na pista.
O meu último final de semana foi de organização, roupas, luvas e meias, muitas e muitas meias (são praticamente dois pares por dia !). Embora minha mala não vá tão cheia (de roupas) porque muitas das roupas de frio estão lá em Punta Arenas, dessa vez eu tenho um mini laboratório para levar, com rede de plancton, garrafa de coleta, instrumentos, sensores, e uma infinidade de pequenas coisas. 
Enquanto isso, fico sonhando com minha casa de verão. E fuçando nas coisas hoje deparei com uma bela foto de 2013 do Ocean Nova "estacionado" em uma placa de gelo na Ilha Deception. 
o Ocean Nova estacionado no gelo
São essas lembranças que fazem o sangue acelerar nas veias, e o tempo dilata (ou comprime, dependendo do humor), mas os dias seguem passando e logo mais tomo meu rumo sul. Southbound !!! finalmente !.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Enfim a barreira dos 30...

Enfim a temporada se aproxima e com ela todo o mau tempo que as temperaturas mais amenas trazem. Isso mesmo - o verão chega com temperaturas mais altas e lá na Península a coisa fica feia, muito feia mesmo !
Meus amigos zarparam já, desde o dia 11 navegando pelos mares antárticos com a primeira leva de turistas. E eu aqui só acompanhando de longe, esperando a minha hora de ir.

Abri a câmera de O'Higgins (http://ivs.bkg.bund.de/vlbi/ohiggins/) e o tempo está um horror ! Temperaturas na casa dos -5 a -10°C e muitooo vento, batendo nos 100 km/h. As imagens falam por si só.
Imagem da base O'Higgins mostrando "ondas" dento da Baia de Puerto Covadonga, resultado de um vento muito forte.

Dados meteorológicos da base GARS/O'Higgins - Hoje (18/11) o vento anda pela casa dos 100 km/h.
Enquanto isso, lá no sul de Gerlache, os canais parecem abertos mas um enorme campo de gelo ainda continua fechando o acesso a Plenneu Bay e parte do canal de Lemaire. Curiosamente parece que pelas ilhas Argentinas o gelo já deu uma trégua, mas a passagem aos navios está fechada. Eu estou ansioso para ter notícias dos meus colegas, que devem estar por ali agora mesmo.
Imagem de satélite mostrando ainda muito gelo no canal de Lemaire.
E eu aqui no laboratório empacotando o primeiro lote de material que segue para o sul por via aérea no domingo. Minha querida e amada "lupa", e todo o material de laboratório que vou usar. Ainda falta a rede e a garrafa de coleta de água e mais alguns aparelhos. Ainda assim, fico cada vez mais ansioso cada vez que eu olho o relógio e vejo o tempo passar. Hoje são 26 dias para Antártica e o tempo parece que acelera cada vez mais.
Primeiro lote de material para o laboratório.

O jeito é ter paciência e tentar controlar a ansiedade, ao mesmo tempo que termino todas as coisas importantes que tenho para fazer.

tic tac tic tac - e o tempo só sabe correr.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Finalmente .... o amor !

Já não era sem tempo para os jovens pinguins, esperando pacientemente pelo "amor de verão". Agora sim na base O'Higgins em Puerto Covadonga, o amor está no ar. Grupos de pinguins começam com os namoricos e os primeiros ninhos parecem aparecer por todos os lados. Consegui pegar essa imagem no final da tarde de hoje com um belíssimo por de sol apesar do vento frio. Muita neve por ali.

Colagem de imagens da base O'Higgins (http://ivs.bkg.bund.de/vlbi/ohiggins/)

Enquanto isso mais ao sul, Gerlache adentro, ventos de sudoeste empurraram tudo o gelo marinho que estava a leste de Lemaire para dentro da porção sul de Gerlache. O resultado disso é que as condições de gelo ao redor de Port Lockroy vão impedir da nova equipe de embarcar e reabrir o local, a menos que esse gelo todo comece a se mover. Para seguir as façanhas da Sarah e equipe, é só acessar o blog da UKAHT (http://www.ukaht.org/).

Imagem de satélite de Gerlache sul mostrando muito gelo fechando toda a área da base de Port Lockroy.

domingo, 26 de outubro de 2014

Faltam menos de dois meses para o verão

Tenho acompanhado a situação na península todos os dias e o gelo, que ainda dá sinais de grande cobertura ao redor da Antártica, na verdade agora retrocedeu incrivelmente rápido este ano. O máximo da zona marginal de gelo está no setor índico e no setor pacífico leste, seguindo a famosa Onda Circumpolar Antártica. Esse parece ser o principal mecanismo que controla a expansão do gelo marinho ao redor da Antártica. Se isso for realmente verdade, significa que águas mais quentes (intermediárias, em profundidades entre 600 e 1000 metros) estão defletindo agora pelo giro de Weddell e parte entrando nos estreitos de Bransfield e Gerlache, o que explica a ausência de gelo na península nessa época do ano.
Imagem do sensor MODIS/AQUA de 26/10/2014 mostrando Bransfield e Gerlache completamente sem gelo.

Qual o resultado prático de tudo isso ? mais calor, menos gelo, mais espaço para os pinguins fazerem seus ninhos, e uma meteorologia digna da "Família Adams". Estou começando a achar que esse verão o tempo não será uma coisa muito agradável como no ano passado. Ventos fortes e intensa precipitação vão dar trabalho esse ano.
Ilha Deception sem gelo, apenas neve pelas encostas.


Enquanto isso, a Ilha Deception já não apresenta sinal qualquer do gelo que até semana passada cobria metade de Whalers Bay, e lá em Puerto Covadonga, do outro lado da península, os pinguins simplesmente dobraram em número. Já começam a aparecer em pequenos grupos enamorados e pela quantidade de fezes ao redor dos pontos históricos da pinguineira, logo mais já vamos começar a ver ninhos por ai.
Puerto Covadonga agora com uma boa população de pinguins.


Dai é só contar 35 dias e os primeiros pinguinzinhos de 2014 vão começar a aparecer. Estou ansioso por aqui - são menos de 50 dias para meu embarque rumo ao sul e ainda muita coisa para ser resolvida. Enquanto isso....estamos de olho na península.

Gordinhos gordinhos gordinhos....os gentoos de Puerto Covadonga.


sábado, 18 de outubro de 2014

Os portões de Neverland

O paradisíaco Canal de Lemaire é um canyon com poucas centenas de metros de largura e de difícil navegação quando está tomado de gelo. Ele marca ainda um portal, para as viagens que vão para o Círculo Polar. Além disso ele está na fronteira do gelo sazonal e dependendo do ano, pode estar completamente inacessível.

Curiosamente este ano, apesar do recorde de extensão de gelo a poucas semanas atrás, o Lemaire parece estar aberto. A imagem de satélite de hoje, permite ver claramente o gap entre a ilha Booth e a península, embora muitos debris de gelo estejam ao sul do canal. Mas ainda assim, até mesmo as ilhas Argentinas (onde está a base ucraniana de Verdnasky) parecem estar "ice free".

O paradisíaco Canal de Lemaire
Pela imagem é possível ver também que Paradise Bay está aberta, embora muito gelo (fast ice) ainda esteja acumulado dentro das enseadas ao sul. É curioso porque é exatamente lá que se encontra a parte mais baixa de acesso a calota. Aparentemente ao norte de Paradise todas as baias estão livres de gelo, o que se supõem então que as temperaturas "da camada mais superficial" estejam mais quentes, enquanto que o ar sobre a península ainda continue muito frio (o que explicaria gelo nas enseadas ao sul de Paradise).
No mínimo curioso - e eu estou ansioso para experimentar tudo isso bem de perto.
56 dias e contando....

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um pedaço da história....

Nas últimas temporadas, tive a oportunidade de visitar Antarctic Sound com o navio "Ocean Nova" e a Antarctica XXI. Esse lugar é a porta para o Mar de Weddell, com seu imenso giro coberto de gelo marinho, pinguins imperadores, orcas e paisagens espetaculares, entre outras coisas. Mas também é um pedaço da história antártica que me fascina.

Uma placa de madeira e pedras  erguidas em Pinguim Bay, na costa sul da Ilha de Seymour, foi colocada em 10 de novembro de 1903 pela tripulação da Corveta argentina "Uruguai" (isso mesmo ! ela se chamava Uruguai) em uma missão para resgatar os membros da expedição sueca liderada por Otto Nordenskiöld. A inscrição na placa, colocada onde as duas partes se encontraram, lê-se: 

"10.XI.1903 Uruguai (Armada Argentina) em sua jornada para dar assistência à expedição à Antártida sueca". 


O estado deplorável da equipe de Nordenskjold quando resgatados. Veja o documentário em http://www.abc.net.au/catalyst/stories/2886123.htm

Otto Nordenskjöld foi um geólogo e geógrafo sueco que organizou e liderou uma expedição científica da Península Antártica. O comando foi dado a um excelente antártico chamado Carl Anton Larsen, que atuou como o capitão do navio Antarctic, e quem havia ordenado anteriormente uma missão baleeira de reconhecimento em 1892-93. Sete outros cientistas, juntamente com 16 oficiais e soldados também fizeram a viagem. Em 16 de outubro de 1901, o Antarctic partiu de Gotemburg para a expedição de Nordenskjold. 

O problema é que muitas coisas deram errado e a equipe de Nordenskjold acabou separada em diversas ilhas (Snow Hill, Paulet e Seymour) e o barco acabou naufragando 25 milhas para dentro de Antarctic Sound (que tem esse nome justamente por causa do barco). O time de Nordenskjöld sobreviveu comendo pinguins até ser resgatado em 1903 pelos argentinos.

Olhando hoje nas imagens de satélite, vejo Antarctic Sound completamente aberta e o gelo marinho fluindo do Mar de Weddell para dentro do Bransfield. Mas o que me chamou a atenção foi a Ilha Seymour completamente nua, sem neve !
Imagem do satélite MODIS/AQUA mostrando a Ilha Seymour sem neve.

Mas o que me fascina mais ainda é a história de Seymour Island muito mais antiga, que cobre do rochas cretáceas e terciárias, e depósitos muito antigos com milhares de fósseis. A história viva de quando a Antártica era uma região de clima muito mais ameno do que é hoje.
Ilha Seymour com seus depósitos antigos. 1 - Depósitos fluvioglacial recentes, 2 - Formação La Meseta (Eoceno), 3 - Formação vale Cruz (início Paleoceno tardio), 4 - Formação Sobral, unidade 4 (início do Paleoceno), 5 - Formação Sobral, unidade 3 (início do Paleoceno ), 6 - Formação Sobral, unidade 2 (início do Paleoceno), 7 - Formação Sobral, unidade 1 (início do Paleoceno, 8 - Formação Lopez de Bertodano, unidade 10 (Final Maastrichtian - Paleoceno precoce), 9 - Formação Lopez de Bertodano, unidades 1-9, 10 - diques basálticos.
Veja detalhes deológicos em http://www.geologicallocations.com/antarctica/seymour-island.htm.

Fósseis de Amonites da formação Lopez de Bertodano.
É incrível como a história se preserva mesmo em um local onde o gelo e a neve deveria moer tudo até virar pó. O mais interessante ainda é que em outros lugares da Antártica encontramos esses mesmos vestígios, como um grande quebra-cabeça continental da mudança climática e geológica do nosso planeta.

(...contando os dias para voltar para o gelo).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Primavera sem gelo

A rotina de olhar imagens e webcams antárticas segue e cada dia que passa parece que o continente gelado fica cada vez mais perto. O gelo marinho no estreito de Bransfield praticamente desapareceu embora algumas baias ainda estejam completamente congeladas.

Com mais sol durante o dia, no caminho para o verão antártico, o vapor e a umidade rapidamente viram neve que se deposita rapidamente em tempestades fortes. É o que aconteceu nos últimos dias em O'Higgins. Veja as duas imagens abaixo. A primeira é de 01/10 e a segunda é de 09/10. Uma quantidade enorme de neve se depositou na enseada de Puerto Covadonga.



E os pinguins ? esses seguem gordinhos, firmes e fortes. Até o momento nenhum sinal de que começa a temporada de "namoro". Nenhum ninho e nenhum "flerte", o que é absolutamente normal para essa época.


A situação em Bransfield é boa, embora esse céu aberto só aconteceu por poucas horas hoje. A mais de duas semanas o tempo está encoberto e os dados da estação meteorológica de O'Higgins só mostra vento forte a muito forte. É a primavera antártica !


Nas imagens do satélite MODIS-AQUA é possivel ver Antarctic Sound praticamente aberto e nenhum gelo ao redor das Shetlands. Em compensação, a Baia Foster em Deception está completamente congelada. Será que esse gelo derrete até o início da temporada ? em menos de 1 mes ?

Vamos aguardar....a animação é total. E que a primavera continue assim.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

...e la vamos nós mais uma vez

"Já se passaram alguns minutos depois do almoço e o balanço do navio diminuiu bastante nas últimas horas. Pequenos estalos no casco prendem a minha atenção, mas da minha janela, no primeiro deck, só vejo o vidro embaçado embaixo da escada externa. Mas consigo ver que o horizonte tem uma claridade diferente. Coloco o casaco pesado e o gorro, e sem esquecer das luvas, subo até a ponte e vou para a área externa. Um gigantesco iceberg flutua ao longe e nossa casa flutuante desliza sobre um mar de panquecas de gelo ! isso mesmo ! panquecas. Que coisa mais fantástica ! O swell é grande - uns 3 metros de altura pelo menos, mas quase não há vento, e o navio vai avançando em um mar quase congelado".
O mar congelado visto da ponte do R/V Nathaniel Palmer, em Setembro de 1994. Minha primeira visão do gelo.

Em setembro de 1994, vinte anos atrás, eu entrava pela primeira vez nos domínios do gelo. E foi ali que aquele instinto polar nasceu. O instinto que nos faz voltar todos os anos, como os pinguins, as baleias, as aves polares, as focas. SOUTHBOUND - o caminho para o sul. Este ano é mais do que especial. Fazem 20 anos ! e cada ano é um ano especial. 
Estou contando os dias, as horas, os minutos. O cheiro das coisas me faz lembrar o gelo. As fotos, imagens, as roupas que eu já começo a separar. Todos os planos e todas as células do corpo apontam para o sul. Essa grande força magnética.

Hoje a marca dos 70 dias foi rompida e o tempo começa a acelerar. Meus companheiros de aventura polar já estão também na fase final de migração. Uns mais adiantados do que os outros. A temporada começa em praticamente 1 mês para eles. Mas esse ano vou um pouco mais tarde, com muito trabalho pela frente e uma novidade: um novo desafio que fica aqui em terra. Mas já estou começando a costurar os laços que unem esses dois mundos. 

E para não perder o costume, dando uma espiadinha do que está rolando no sul, vejo que os meus amigos pinguins estão por lá a muito tempo. De olho na webcam da base GARS/O'Higgins (http://ivs.bkg.bund.de/vlbi/ohiggins/) vejo que a baia de Puerto Covadonga está aberta e o vento batendo firme na costa. Já tinha observado um bom punhado de pinguins por ali no final de Setembro.

Imagem da base GARS/O'Higgins. Os pontinhos pretos na praia são pinguins Gentoo.


Esse ano foi bem atípico. Apesar do recorde de extensão de gelo marinho, atingido umas 2 semanas atrás, a área da Península, especialmente o estreito de Gerlache, ficou descoberto por muito tempo. Estou apenas aguardando uma melhora do tempo para ver como está o gelo em Gerlache sul, perto de Lemaire.

...e assim eu vivo meio cá meio lá, contando as horas para mais uma vez respirar o puro ar Antártico.