terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um pedaço da história....

Nas últimas temporadas, tive a oportunidade de visitar Antarctic Sound com o navio "Ocean Nova" e a Antarctica XXI. Esse lugar é a porta para o Mar de Weddell, com seu imenso giro coberto de gelo marinho, pinguins imperadores, orcas e paisagens espetaculares, entre outras coisas. Mas também é um pedaço da história antártica que me fascina.

Uma placa de madeira e pedras  erguidas em Pinguim Bay, na costa sul da Ilha de Seymour, foi colocada em 10 de novembro de 1903 pela tripulação da Corveta argentina "Uruguai" (isso mesmo ! ela se chamava Uruguai) em uma missão para resgatar os membros da expedição sueca liderada por Otto Nordenskiöld. A inscrição na placa, colocada onde as duas partes se encontraram, lê-se: 

"10.XI.1903 Uruguai (Armada Argentina) em sua jornada para dar assistência à expedição à Antártida sueca". 


O estado deplorável da equipe de Nordenskjold quando resgatados. Veja o documentário em http://www.abc.net.au/catalyst/stories/2886123.htm

Otto Nordenskjöld foi um geólogo e geógrafo sueco que organizou e liderou uma expedição científica da Península Antártica. O comando foi dado a um excelente antártico chamado Carl Anton Larsen, que atuou como o capitão do navio Antarctic, e quem havia ordenado anteriormente uma missão baleeira de reconhecimento em 1892-93. Sete outros cientistas, juntamente com 16 oficiais e soldados também fizeram a viagem. Em 16 de outubro de 1901, o Antarctic partiu de Gotemburg para a expedição de Nordenskjold. 

O problema é que muitas coisas deram errado e a equipe de Nordenskjold acabou separada em diversas ilhas (Snow Hill, Paulet e Seymour) e o barco acabou naufragando 25 milhas para dentro de Antarctic Sound (que tem esse nome justamente por causa do barco). O time de Nordenskjöld sobreviveu comendo pinguins até ser resgatado em 1903 pelos argentinos.

Olhando hoje nas imagens de satélite, vejo Antarctic Sound completamente aberta e o gelo marinho fluindo do Mar de Weddell para dentro do Bransfield. Mas o que me chamou a atenção foi a Ilha Seymour completamente nua, sem neve !
Imagem do satélite MODIS/AQUA mostrando a Ilha Seymour sem neve.

Mas o que me fascina mais ainda é a história de Seymour Island muito mais antiga, que cobre do rochas cretáceas e terciárias, e depósitos muito antigos com milhares de fósseis. A história viva de quando a Antártica era uma região de clima muito mais ameno do que é hoje.
Ilha Seymour com seus depósitos antigos. 1 - Depósitos fluvioglacial recentes, 2 - Formação La Meseta (Eoceno), 3 - Formação vale Cruz (início Paleoceno tardio), 4 - Formação Sobral, unidade 4 (início do Paleoceno), 5 - Formação Sobral, unidade 3 (início do Paleoceno ), 6 - Formação Sobral, unidade 2 (início do Paleoceno), 7 - Formação Sobral, unidade 1 (início do Paleoceno, 8 - Formação Lopez de Bertodano, unidade 10 (Final Maastrichtian - Paleoceno precoce), 9 - Formação Lopez de Bertodano, unidades 1-9, 10 - diques basálticos.
Veja detalhes deológicos em http://www.geologicallocations.com/antarctica/seymour-island.htm.

Fósseis de Amonites da formação Lopez de Bertodano.
É incrível como a história se preserva mesmo em um local onde o gelo e a neve deveria moer tudo até virar pó. O mais interessante ainda é que em outros lugares da Antártica encontramos esses mesmos vestígios, como um grande quebra-cabeça continental da mudança climática e geológica do nosso planeta.

(...contando os dias para voltar para o gelo).

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