23/12 – O novo grupo de passageiros chegou debaixo de um
vento frio e céu encoberto. Nuvens bem carregadas indicavam muita neve e o vento
começou a soprar bem forte. Na verdade, só deu tempo de entrar no navio e o
tempo fechou total. Muita neve e vento e mesmo em baixa velocidade começamos a
bater firme nas ondas já na saída da baia Maxwell (onde fica a estação chilena
de Frei). O pior de tudo isso é que a primeira coisa que fazemos a bordo é um
treinamento de alarme de abandono, em caso de problemas. Todos os passageiros
tem que estar no Panorama Lounge, que fica no deck 5, justamente o lugar que
mais balança no barco. Nem preciso dizer que foi um desastre ! Muita gente
mareada e ainda assim, a necessidade de completar o treinamento. Fizemos o
possível, vários sacos de vômito distribuídos e o doutor trabalhando mais que o
normal distribuindo comprimidos de Dramin mas que na verdade não funcionavam
mais pois já estávamos balançando muito. Pulamos as apresentações do staff e do
capitão Barrios, fomos ao jantar e pouquíssimos sobreviventes apareceram para
comer nesse navio fantasma. O bate-bate foi noite adentro até estarmos em
Gerlache norte, onde o vento não estava tão forte. Foi com certeza uma noite
bem difícil.
 |
| O poste de direções na frente da base de Bellingshausen em Frei. |
24/12 – a véspera de Natal foi uma surpresa. Chegamos em
Mikkelsen pela manhã com um tempo absolutamente aberto, com sol e sem vento.
Nem parecia que a poucas horas estávamos brigando com as ondas e o vento para
chegar até ali. Óbvio que foi um baita alívio para os passageiros que acabaram
aproveitando uma excelente manhã na ilha rodeado por pinguins e focas. Voltamos
a bordo para o almoço de véspera, um cardápio especial, seguido de um cruzeiro
de zodiac em Cierva Cove, como sempre cheia de icebergs, gelo e com direito a
um show de uma baleia que ficou mergulhando curiosamente ao nosso redor. Tudo
era um pouco especial, incluindo nossos chapéus de papai noel. A janta veio
também com um cardápio artístico de Natal, preparado pelo nosso chef Daniel
além de uma festinha privada com a tripulação. Mas como era Natal, ficamos
divididos entre a nossa comemoração rápida (apenas uma meia hora, com presentes
e chocolates), e com os passageiros, no Panorama Lounge. Mas na verdade, o que
dá para perceber é que a maioria das famílias que vão visitar a Antártica nessa
época, quer mesmo é fugir de festividades. Então, exatamente a meia-noite fui
dormir já bastante cansado com o ritmo frenético de 7x7 dias, 24x24 horas de
trabalho.
 |
| Mike de papai noel para a festinha da tripulação |
25/12 – Para algumas pessoas, a comemoração de Natal é
realmente no dia 25, como para Mike, nosso canadense especialista em mamíferos
marinhos. Acordamos em Dorian Bay com ele gritando “oh oh oh Merry Christimas”
no rádio, em uma manhã maravilhosamente clara. Eu adoro esse lugar. Foi ali que
Amyr Klink passou o inverno com o Paratii e onde eu adoraria repetir o feito. O
lugar é mágico, bonito e super protegido de icebergs. Ideal para colocar um
veleiro por ali. Além disso, Dorian está ao lado de Port Lockroy, outro dos
meus locais preferidos na península. Apesar da festa, não ficamos muito tempo
em Dorian. Partimos logo antes do almoço rumo sul, para o canal de Lemaire e a
estação de Verdnasky. Muito gelo estava fluindo rumo norte e o tempo virou
rápido, com nuvens negras no horizonte e um clima bem característico antártico.
Entramos pelo Lemaire e poucos tempo depois estávamos na frente do canal
principal de acesso a Verdnasky, a base ucraniana instalada no meio das ilhas argentinas.
O problema é que havia ainda muito gelo pelos canais e mais ainda, gelo
triturado, brash ice, ao longo do canal principal. Colocamos os passageiros em
Verdnasky e com a mudança da maré, todo o gelo do canal principal começou a
entrar rápido entre as ilhas fechando completamente a passagem para o navio.
Demorou um bom tempo até que o navio reposicionasse um pouco mais ao norte,
onde não havia tanto gelo, e conseguíssemos com os botes abrir um pouco o
caminho até o navio. Que aventura ! contamos com a experiência do grupo e as
habilidades individuais, e conseguimos manejar a situação com perfeição. Os
passageiros ganharam uma boa história para contar em casa e nós, uma boa salva
de palmas durante a janta do dia de Natal.
É uma sensação no mínimo estranha. Já faz algum tempo que eu
passo meu natal assim embarcado e tenho esse povo do navio como uma segunda família.
Os meus “elefantes de Natal”, feitos de pano e com muito carinho pela Dona
Silia, são ansiosamente esperados por todos a bordo. E mais uma vez meu natal
foi completo.
 |
| Chegando em Lemaire com um tempo cinza e carregado |
26/12 – O dia amanheceu muito feio e com muita neve em Paradise
Bay, nosso destino da manhã pós Natal. O único movimento era do vai e vem dos
pinguins na base Almirante Brown, onde desembarcamos. A muito tempo não vejo
pessoas na base. Minha tarefa naquela manhã era uma das mais importantes – eu seria
o “pirata do chocolate”. Metade dos passageiros desembarcaram na base e a outra
metade seguiu para um cruzeiro de Zodiac, e eu, juntamente com Chica, nossa
Shopkeeper, levei chocolate quente em um zodiac com uma bandeira enorme da
Antarctica XXI para os passageiros uma meia hora depois, aparecendo de surpresa
por detrás de um iceberg. Depois de um tempo, fazíamos uma troca de passageiros
(os de terra embarcavam, e os dos zodiacs desembarcavam) e novamente o “pirata
do chocolate” aparecia. Apesar de muita neve e frio, foi absolutamente
divertido, ainda mais quando no final apareceu uma baleia mink curiosa com a
nossa presença.
 |
| Os piratas do Chocolate (Chica e eu) em Paradise Bay |
 |
| Barbecue em Orhne Harbour com a equipe do Hotel (nice guys) |
Terminada a tarefa em Paradise, seguimos logo depois da
curva para Orhne Harbour e dessa vez a neve aumentou muito. Mal conseguíamos ver
o navio ancorado na baia. Orhne é um penhasco alto com uns 80-100 metros de
altura, onde vários pinguins chinstrap fazem seus ninhos. Se para nós caminhar
na neve com uma nevasca intensa já é difícil, imagine para um pinguim. Mesmo
com esse frio todo e neve e vendo, os passageiros foram convidados a um banho
polar (polar plunge) ali mesmo e seguimos direto para um churrasco antártico,
com neve e tudo. Obviamente durou pouco, e antes mesmo das 8 hs da noite já
estávamos dentro do Panorama Lounge comemorando um dia fantástico com o Antarctic
Quiz, tocado pelo Jamie e Mike. Tínhamos um bom pedaço de mar para atravessar e
o vento só aumentava. Comecei a sentir o balanço ainda de noite logo depois do Quiz
e já imaginava que a manhã em Deception ia ser difícil.
 |
| Muita neve em Orhne Harbour |
27/12 - A bateção de ondas foi até de manhã e acordamos em
um verdadeiro rodeio com o navio para entrar em Deception. Pela inclinação do
navio já dava para perceber que essa operação seria no limite. Dito e feito –
40 nós de vento e ondas mesmo na abrigada baia de Whalers, dentro da ilha.
Fizemos uma rápida operação de desembarque com a grande maioria dos passageiros
(alguns preferiram ficar a bordo) e logo nos espalhamos pela praia, depois de
tirar uma foto com todo o grupo. Eu e Johnatan, o glaciologista do nosso grupo
de guias, subimos até a janela de Netuno, na borda externa da ilha, enquanto
que a outra parte do grupo ficou entre os destroços da antiga estação baleeira
da ilha. Não durou mais do que uma hora e meia até eu voltar para a praia e
seguir de volta para o navio, ajudando o Doutor Sérgio com uma paciente que não
estava muito bem (na verdade trabalhei como contrapeso para o barco navegar
melhor naquele tempo ruim). Saímos de Deception com vento pela popa o que fez
com que o balanço diminuísse um pouco e eu pude dar minha palestra sobre
mudanças climáticas calmamente. Rumamos durante o almoço para a ilha Half Moon,
para a colônia de pinguins chinstrap. Por mais incrível que possa parecer, em
menos de duas horas o céu abriu em um azul intenso e sem nuvens, e o vento
praticamente ficou em zero. Nem parecia o inferno que tínhamos experimentado
algumas horas antes. Essa é principal característica do clima antártico. Foi uma
tarde longa e tranquila na ilha, inclusive com a presença de “Loveless”, um
pinguim macarroni solteiríssimo que cisma ficar no meio da colônia de
chinstraps. Passamos uma tarde magnífica por ali até que chegou a hora de dar
adeus. Despedidas, farewell, coquetel de adeus e com um vento cada vez mais
forte ancoramos por volta das 22 horas na baia Maxwell em frente a base Frei.
Eu fui dormir cedo pois estava absolutamente cansado, e até deixei para
escrever para casa no dia seguinte. Eu simplesmente precisava dormir.
 |
| Deception com vento e frio |
28/12 – Ainda eram 06:00 hs da manhã quando eu levantei e
fui fazer minhas tarefas de bordo (trocar informações no quadro de avisos,
sobre fatos e ciência antártica) e dei um giro pelo navio. Lá do Panorama
Lounge a base Frei parecia dormir ainda encoberta por espessas nuvens baixas. O
tempo tinha novamente fechado e uma brisa constante e gelada soprava de norte.
Ainda assim, parecia que teríamos operação de vôo como de costume, na parte da
tarde. A manhã foi então organizada com palestras, uma de Nigel sobre história
antártica e outra minha sobre gelo marinho. O almoço veio com a ordem de
colocar todas as malas para fora do barco e prontamente transportamos tudo para
terra. Estavamos em posição de troca de passageiros e minha tarefa era de taxi
boat. Foram no mínimo 3 viagens longas até a praia, sob vento forte, e ao
término eu ancorei meu zodiac para aguardar os próximos turistas que viriam no
vôo. Good Bye, Adeus, e muitas despedidas e uma espera longa de mais ou menos 1
hora no frio da praia. O jeito era se exercitar um pouco para manter o calor. O
vento diminuiu bastante e logo tínhamos uma fila com novos passageiros chegando
– um enorme grupo de Hong Kong (chineses), algumas famílias europeias e outras
poucas americanas, além de um grupo grande de Oman. Já de pronto deu para
perceber que seria um grupo bem diferente do que tínhamos tido até o momento.
Todos dentro dos zodiacs e mais 3 viagens da praia ao barco,
estávamos finalmente zarpando para mais uma Classica Antarctica, a viagem de
ano novo. Dia 2 será o retorno a Frei.
 |
| O por do sol em Frei |
 |
| Frei ainda dormindo |
Nenhum comentário:
Postar um comentário